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O texto como objeto de estudo

16/03/2011 - Girlene Portela

Enquanto a escola soviética fundada por Vigotsky priorizava a atividade cerebral e os processos que visavam à motivação, o objetivo e a realização, a escola proposta pelos cognitivistas da psicologia atual visa a análise de texto por meio da compreensao dos mecanismos mentais do escritor, as etapas de escrita, assim como as variáveis que intervém no processo de produção textual. Para tanto, eles adotam modelos mentais associados a situações problemáticas complexas, considerando os três ângulos do ato educativo: os saberes, o professor e o aluno, o que é uma das principais preocupações da didática geral, a qual trata dos grandes princípios do ensino e das diversas maneiras de ensinar, independente dos conteúdos disciplinares. No campo da educação, ela se interessa pela relação professor-aluno e pelos saberes particulares de cada um desses sujeitos. 

Segundo Legendre (1993), a didática da escrita « s’intéresse à l’enseignement et à l’apprentissage de la langue maternelle ou des langues secondes, du point de vue de la production écrite »[1].(p.366).

Assim como a psicilogia cognitiva e a didática da escrita, a lingüística textual serve de base para os estudos sobre a produção textual e concebe a linguagem como uma ação, considerando o caráter interativo e dialógico da produção textual. Observar a proposta dessa abordagem é fundamental para evitar a ação monóloga na escola, como advertia Geraldi.

A análise do discurso, por seu turno, concebe o texto como um cruzamento de trocas enunciativas que o situa na história pois, numa construção textual, pode-se contar com mais de um locutor ou inúmeros enunciadores, os quais dialogariam, buscando suscitar polêmicas através de olhares de posições sociais e ideológicas diferentes numa construção discursiva.

Em se tratando da situação específica do ensino da escrita, lembremo-nos das palavras de Geraldi quando ele afirma que é na interação com o outro que nos constituímos como sujeitos do nosso discurso, pois o diálogo é elemento inseparável e constitutivo da linguagem, pois sempre falamos ou escrevemos a alguém.

 

O modelo processual de escrita

Os modelos processuais da escrita têm em comum uma visão componencial que complementa ações, baseados em comportamentos, reações e, acima de tudo, da ligação direta da prática com a teoria. Além dessa base componencial, os modelos têm dois outros pontos em comum: o ato de escrever, que requer uma meta e um plano e uma resolução de problemas. (Hayes e Flower, 1980).

As evidências empíricas desse planejamento em níveis podem ser obtidas através de protocolos verbais do escritor, isto é, da verbalização do que o sujeito está fazendo enquanto escreve, daí a importância de se solicitar que o aluno leia em voz alta sua produção, para detectar possíveis confusões, seja de ordem gramatical, textual ou discursiva.  Tais confusões podem ainda ser inferidas através da observação concomitante do movimento ocular, do movimento da caneta ou lápis, do tempo de pausa e do produto que vai surgindo, o que deve ser constatado pelo professor atento às dificuldades dos alunos, as quais são facilmente detectadas ao se conhecerem as limitações e os pontos fortes de cada um na preparação, execução e avaliação das produções escritas, o que se inicia sempre com uma meta, visando um objetivo claro da tarefa a ser realizada, seguido de um planejamento, o qual deve traçar as ações que levaram o autor a atingir as metas, a planejar o modo pelo qual o texto por ele escrito será lido, dentre outros fatores diretamente ligados às funções dos interactantes. O planejamento em nível sentencial também obedeceria a metas textuais, como será melhor explicitado abaixo, com a apresentação dos componentes do nosso modelo de ensino-aprendizagem da escrita.

 

Os componentes do nosso modelo de ensino/aprendizagem de leitura/escrita

a) Argumentação e discursividade

A base de qualquer processo de interação é a discursividade, visto que o seu ponto de partida está centrado num certo acordo entre interactantes. Assim, o processo argumentativo é fruto de um acordo prévio entre o falante/escritor e o seu interlocutor/leitor. Esse acordo, segundo Perelman (1979), exprime-se nas premissas da argumentação. Assim, sendo a argumentação um discurso que se insere numa troca interlocutória recíproca ao nível da sociabilidade, terá de pressupor, ou partir de um acordo sobre o que quer que seja.

Nessa perspectiva, um texto cujo recurso empregado é a oposição ou contraste visa a explicar fatos, idéias, comparando-se e apontando-lhes as diferenças, o que implica a descrição dos elementos comparados, apontando os contrastes e o desenvolvimento de idéias, comparando-as ao mesmo tempo e apontando os contrastes, o que caracterizaria o texto chamado de “dissertativo” nos concursos vestibulares. Mas como dissertar sem conhecer a fundo a temática a ser tratada?

Buscando-se considerar essa proposta de Perelman, iniciamos nosso trabalho com a leitura de diferentes gêneros textuais acerca de uma mesma temática, tendo como mote para nossa primeira produção escrita A exclusão social, visto que nas escolas onde se deu o estudo boa parte dos alunos não tinha uma família “padrão” e o nível de evasão escolar era enorme, pois havia muitas adolescentes grávidas, os rapazes precisavam trabalhar para sustentar as famílias, dentre outros problemas recorrentes em escolas públicas nordestinas. Optando-se por essa temática, teríamos muitos “fios” a serem tecidos para formar o futuro texto, através do uso de alguns recursos argumentativos, os quais serão listados a seguir.

Analogia, metáfora, exemplos e modelos como recursos argumentativos 

A analogia é um dos procedimentos mais utilizados pelo raciocínio, pois ela estabelece uma relação de similitude entre duas relações que unem duas entidades. Por isso, a analogia pode fundar uma metáfora. Assim, é importante que se ensine escrita partindo de conhecimentos prévios e de argumentos por autoridade, pois um texto analógico é aquele que, para facilitar a compreensão do assunto, é estruturado de modo a explicar algo desconhecido ou algo não-familiar por meio de algo familiar.

Uma outra maneira de se ensinar eficientemente e baseando-se em exemplos, ou seja, criando ligações argumentativas que, no dizer de  Perelman fundamentam a estrutura do real é através de um caso particular (exemplo, ilustração, modelo e anti-modelo), mas também do raciocínio por analogia, o exemplo permite a passagem do caso particular para uma generalização, o que se configura num recurso mais ambicioso do que a ilustração com a qual se espera, sobretudo, impressionar.

Já o modelo, ou a pura imitação do caso particular, permite que o autor-leitor descubra uma grande afinidade com o argumento de autoridade, já que, num e noutro, o prestígio da pessoa que se pretende imitar surge como elemento persuasivo e caucionador da própria ação visada. Assim, buscando aliar a teoria à prática, lancei mão de minha história de vida para dar aos alunos a dimensão da importância de nossas escolhas para mudar a realidade da exclusão social, o que serviu de aproximação do pesquisador com seu sujeito e objeto pesquisado.

 

No trabalho de organização de um texto argumentativo é necessário lançar mão de diferentes recursos, tais como a analogia, a oposição, o testemunho, a definição, a ilustração e a comparação, conforme discutido anteriormente, além de estratégias, enumeradas a seguir.

 

As estratégias de escrita

A primeira estratégia a ser considerada num processo de escrita é a leitura. Para entendermos esse processo, precisamos conhecer as sub-estratégias que representam um esquema amplo que permite ao indivíduo obter, avaliar e utilizar informações. No processo de leitura, algumas estratégias são básicas para a compreensão do leitor.

Acredita-se que a leitura seja o mais importante elemento do imaginário. Ler significa refletir, pensar, estar a favor ou contra, comentar, trocar opiniões, posicionar-se, enfim, exercer desde cedo a cidadania. Desta forma, percebe-se o papel da leitura na formação escolar e na formação do leitor, pois como afirma Marisa Lajolo (1982ab, p. 59): “Ler não é decifrar, como num jogo de adivinhações, o sentido de um texto. É, a partir do texto, ser capaz de atribuir-lhe significado, conseguir relacioná-lo a todos os outros textos significativos para cada um, reconhecer nele o tipo de leitura que seu autor pretendia e, dono da própria vontade, entregar-se a esta leitura, ou rebelar-se contra ele, propondo outra não prevista.”

 

Segundo Solé (1998) as estratégias de leitura precisam ser ensinadas porque são adquiridas a partir das orientações e do contato do leitor com textos múltiplos e variados, a depender da necessidade de cada leitor.

As estratégias podem ser inferidas a um texto de acordo com as repostas que o leitor dá àquele texto, através de resumos e de paráfrases. A maneira como o leitor explora o objeto de leitura varia muito, alguns lêem e relêem, outros passam “os olhos por cima”, há aqueles que lêem em voz alta, grifam, etc.

De acordo com os estudos de Solé (1998), as estratégias de leitura podem ser classificadas em cognitivas e metacognitivas. Tal classificação é feita de acordo com as operações regulares que o leitor usa para abordar um texto.

As estratégias cognitivas são as oposições inconscientes do leitor, no sentido de não ter chegado ainda ao nível consciente, que ele realiza para atingir algum objetivo específico da leitura. Os conhecimentos que comandam essas operações não podem ser verbalizados pela maioria dos falantes porque é implícita, eles estão em nossa memória quando fatiam e processam as informações.

As metacognitivas seriam aquelas operações realizados com alguns objetivos em mente, sobre as quais temos controle consciente, no sentido de sermos capazes de dizer e explicar a nossa ação.

O leitor tem condição de autoavaliar a própria compreensão e determinar um objetivo para leitura. Se ele não tiver alcançado os seus objetivos com eficiência, perceberá e voltará a reler, procurando significados das palavras chaves do texto, fichando, grifando, etc. procurará resolver os problemas se tiver consciente de sua falha na compreensão.

As estratégias não são receitas prontas e perfeitamente eficazes, mas devem permitir que o aluno planeje a tarefa geral de leitura e suas próprias decisões diante dela. O essencial não é que os alunos possuam um rico acervo de estratégias, mas que saibam utilizar as estratégias adequadas para a compreensão do texto.

 

 

 


[1] A didática da escrita « se interessa pelo ensino e pela aprendizagem da língua maternal ou de segundas línguas, do ponto de vista da produção escrita ». (Tradução livre).

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