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Veja a venda, vendo a Veja: Análise de Discurso e ensino

15/06/2011 - Jocenilson Ribeiro

Há dois anos e meio, quando ocorreu o VIII Encontro Regional dos Estudantes de Letras, em São Luis, MA, tive a oportunidade de assistir a uma mesa redonda, cujo eixo-temático girava em torno dos estudos da Análise do Discurso (AD) e sua aplicabilidade na formação de profissionais de Letras. De imediato, o tema me chamou a atenção pelo fato de querer saber o que faria um analista de discurso numa situação de ensino. Minhas expectativas foram superadas enquanto um dos expositores apresentava os resultados e procedimentos metodológicos de sua tese de doutorado defendida, naquela época, na UFPE. Seus estudos tinham como corpus capas de revistas Veja publicadas nos anos correspondentes ao primeiro mandato do governo Lula. Um de seus objetivos era analisar a construção da imagem do Presidente, levando em conta os elementos semióticos presentes na capa: tamanho de letras, fotografia, caricaturas, escolha de verbos e substantivos, associação de cores etc.   No momento do debate, as pessoas dirigiam questões aos expositores acerca dos respectivos trabalhos. Um senhor, antes de fazer sua pergunta, tomou a palavra e fez uma crítica às pesquisas atuais sob o âmbito da AD. Para ele, tais estudos pouco contribuíam para a formação docente e muito menos para sua prática em sala de aula. Depois de muito tentar ser ouvido em meio ao tumulto que provocou, conseguiu expressar-se: professor, de que vale analisar essas capas se a Veja é um veículo forte no país e sempre continuará impondo suas verdades ou falsidades? Qual a função desses estudos na minha vida e na vida de meus alunos do ensino fundamental? Categoricamente, o professor respondeu, perguntando antes o nome do interpelante: se teus alunos não fizerem perguntas desse tipo quando chegarem à faculdade, significa que os estudos do discurso surtiram efeitos, caso contrário, cabe a você ajudá-los hoje a não apresentarem tal ingenuidade amanhã. Toda platéia vibrou aplaudindo-o. Só depois de muito tempo fui entender a ironia implícita como estratégia retórica, cujo intuito era sair pela tangente. Percebi, portanto, que o doutor julgou tanto a questão em foco quanto seu interlocutor ingênuos, mas não respondeu à pergunta que lhe foi dirigida.   O que se pode notar, dentre outras leituras, é que muitos pesquisadores hoje estão mais preocupados em preencher currículos e acumular títulos do que, realmente, contribuir para a qualidade da educação nos diferentes níveis, salvo exceções. O professor manifestou sua angústia, ao interpelar o lingüista, simplesmente por não encontrar uma contribuição direta para sua prática, num momento em que, ao contrário, deveria obter respostas eficazes para sua prática justamente naquele evento. Neste contexto, pode-se perceber que os estudos do discurso (extensão dos estudos de Ciência da Linguagem), para alguns estudiosos, têm servido muito mais para um jogo de poderes e embates acadêmicos que, de fato, para a resolução de problemas educacionais como a leitura, por exemplo.   Alguns teóricos têm trazido ricas contribuições para os estudos do discurso, mas poucos são aqueles que se preocupam em contribuir com os percalços da educação nos níveis mais básicos. No livro Língua como prática social: das relações entre língua, cultura e sociedade a partir de Bourdieu e Bakhtin, publicado este ano pela editora Cortês, o lingüista e antropólogo William Hanks, da Universidade da Califórnia, diz que os “antropólogos têm estudado diferentes aspectos da relação entre as produções textuais e discursivas e o poder social” estabelecida entre as pessoas. Para ele, “a produção e a recepção textuais podem mudar a realidade social ao alterar os entendimentos e as relações” (p. 152). Nessa perspectiva, a fala ou a escrita, como forma de ação, tem a capacidade de gerar efeitos e conseqüências; e o texto, como matéria do discurso, “não apenas tem força potencial locucionária, ilocucionária e perlocucionária, mas ele é também um modo poderoso de naturalizar a realidade social (...) e socializar a realidade natural” (id.). Essa concepção de Hanks (2008) parece-nos óbvia, mas, por traz da engenharia do texto, existe um conjunto de variáveis responsáveis pela eficácia do enunciado, tais como o que se enuncia, de onde se produz o enunciado, quais os sujeitos envolvidos e como são construídos, quando se enunciou, por que se disse dessa forma e não de outra, qual o papel do enunciado naquele exato momento etc. Se analisarmos a pergunta do professor bem como a resposta do lingüista, obteremos as respostas para cada elemento desse, e não é difícil entender o jogo que se instaura entre quem pergunta e quem responde. Talvez a questão maior seja: de que vale o governo investir tanto na formação de doutores se as limitações, na educação básica, ainda se perpetuam?   Pensando tanto em questões como essas quanto na necessidade de haver uma melhor contribuição dos estudos da linguagem para a educação lingüística, compete-nos, professores de línguas, levar em conta as condições de produção do discurso, conforme destaca Foucault em A ordem do discurso (2001), mas, sobretudo, o sujeito-aluno como o ser a quem se deve transformar com o conhecimento, não simplesmente fazer o conhecimento pelo conhecimento.   Bakhtin (1997), quem influenciou muitos estudiosos de ciências humanas, defendeu a tese de que a estrutura do enunciado e a atividade mental são de natureza social e, por essa razão, o discurso carrega sempre uma atividade ideológica. Mas, apenas discutiu a linguagem pela linguagem, esqueceu-se de pensar em nossa tarefa enquanto educador e sugerir uma mudança na construção de conhecimentos. Está aí justificada a angústia daquele professor. Ele pouco tinha visto uma relação entre analisar os discursos e ensinar língua(gem). Cientes disso, nós poderemos promover uma educação lingüística pautada tanto nas tarefas de leituras quanto nas de (re)escrita (ambas associadas), cujo objetivo é levar os alunos a questionarem os enunciados por mais que a pergunta pareça ingênua, porque, no final das contas, não há pergunta totalmente ingênua; há perguntas sobre as quais já se tem respostas.

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