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Angustias do professor de escrita

08/03/2013 - Girlene Portela

Considerações (nada) finais e pessoais

Ao iniciar as pesquisas para a produção desse texto, não imaginava o quanto minhas concepções acerca da leitura e da forma como ela é tratada pelos órgãos que deveriam se ocupar da educação poderiam me incomodar ainda mais, me trazendo certa indignação com nosso “fazer acadêmico”, que nos obrigada a criar uma redoma enquanto mestres e doutores, voltados para as nossas discussões acadêmicas, nossas intermináveis reuniões de Departamento, discutindo sobre quem sai de licença prêmio, quem tem direito ao incentivo por produção científica, quem já pode/deve se aposentar, quem deve solicitar licença para cursar esse ou aquele curso de pós-graduação. Some-se a essa preocupação, as greves por melhores salários, etc, etc., etc....

Mas, quando cumprimos mesmo o nosso papel social, enquanto pesquisadores, levando os resultados das nossas incontáveis pesquisas, bancadas pelo povo e seus impostos cada vez mais absurdos, para quem de fato necessita delas?

Oriunda de uma situação que contrariava toda estatística, no que tange estar aqui hoje defendendo um trabalho acadêmico para pertencer ao seleto grupo de professores plenos, sinto um misto de orgulho e de desencanto, pois concluo que tudo o que fiz foi muito pouco para mudar uma realidade que apenas pessoas com muita resiliência e força de vontade pode vencer, galgar posições sociais, como eu tive a oportunidade de fazer.

Lendo estatísticas, verificando suas incongruências, constatando através de minhas memórias enquanto aluna, estudante, professora e pesquisadora o quanto estamos distantes da sala de aula, confesso minha crise existencial como professora/pessoa no mundo. Gostaria imensamente que esse material pudesse sair dos muros da universidade, gostaria que meus estudos pudessem ajudar, de fato, quem deles necessita. Acredito piamente que a educação brasileira pode melhorar, se mudarmos nossa forma de conceber a universidade, pois não aceito a forma como trabalhamos em nossas aulas nos cursos “superiores”, mostrando aos nossos estudantes o quanto somos gabaritados porque conhecemos muitas teorias linguísticas e nossos imensos currículos de fazeres acadêmicos.

Quero de volta o encantamento da adolescente que apostou na escola para mudar sua realidade e o fez exatamente através daquilo que mais gostava de fazer: ler!!! Ler por prazer, ler para não me sentir só, ler para conhecer outras realidades, ler para escrever como os meus escritores favoritos.

Quando a vida me permitiu fazer um vestibular, nem sabia o que era uma redação, mas assim mesmo a minha prova escrita ficou entre as quatro melhores de todo o vestibular, contrariando as instruções que dizia que o mínimo de linhas era 20 e o máximo era 35. Sem saber que poderia ser “limada” por escrever mais de 60 linhas, deixei o coração e o parco conhecimento gramatical mandar e coloquei ali, naquele espaço destinado à redação, minhas impressões das muitas viagens que realizei, embalada pela poesia de Lulu Santos, cujo trecho de uma de suas músicas nos convidava a escrever ou desistir, pois não havia mais de um tema a escolher...

Foi na “vida vem em ondas como o mar” que embarquei no sonho de ser o que eu nem mesmo sabia que seria, já que fiz vestibular apenas para acompanhar alguém em seu sonho de ser da casta “superior” e que por ironia, não conseguiu sê-lo!

Foi lendo que logrei êxito no concurso vestibular, foi lendo que resolvi muitas malquerências que a vida me impunha, foi lendo que aprendi a escrever. Por quê então não lemos mais? Por quê a escola nos nega tal prazer? Mas, para não concluir esse desabafo com minha amargura de professorinha que entrou na universidade e mudou radicalmente, convido dois pensadores para retomarem por mim esse texto que deveria ser acadêmico, para rever o foco do início desse relato: a leitura em suas variadas formas. De acordo com Leffa, citado ao longo do presente texto, “A riqueza da leitura não está necessariamente nas grandes obras clássicas, mas na experiência do leitor ao processar o texto. O significado não está na mensagem do texto, mas na série de acontecimentos que o texto desencadeia na mente do leitor” e foi exatamente isso que me levou a querer fazer Letras, pois acreditava que leria mais, conheceria mais, não para escrever artigos científicos, mas para conhecer o mundo, pois como atesta Darcy Ribeiro “O livro, bem sabemos, é o tijolo com que se constrói o espírito. Fazê-lo acessível é multiplicar tanto os herdeiros quanto os enriquecedores do patrimônio literário, científico e humanístico, que é, talvez, o bem maior da cultura humana.”

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