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A dupla face das obras de Caetano Dias

20/03/2013 - Francisco Antônio Zorzo

O sistema social atual desperta uma certa paranóia. Esse efeito se amplia, inegavelmente, devido à reprodutibilidade e à velocidade da propagação de imagens. Tal reprodução está implicada, de modo exaustivo, em dispositivos de poder. Para enfrentar essa condição a arte precisa recorrer a determinados procedimentos criativos.


Na exposição “Inverta”, em cartaz na Caixa Cultural, as obras de Caetano Dias apresentam-se com uma dupla face, uma estética e outra crítica. A face estética lhe confere o sentido gerador e mais amplo, expressando sentimentos nobres e sensibilidade acurada.  Mas a outra, que se desenvolve num viés, por assim dizer, transdisciplinar, não fica restrita às artes visuais.

 

É assim que se entende o esforço da curadoria da exposição, em perfeito acordo com os procedimentos criativos de Caetano Dias. Se a arte contemporânea vai ser reproduzida em repetições mecânicas, que tendem a vulgarizar, desgastar e comprometer as obras, o criador deve planejar a aparição com todo o cuidado. O artista não pode ser ingênuo e expor seu trabalho para o simples consumo, sem provocar nenhuma reflexão transformadora.

 

Em outras mostras anteriores, já ficara claro o intento crítico de Caetano Dias. Numa de suas últimas exposições individuais, denominada “Transverso”, o que havia? Em primeiro lugar uma maquete de um edifício na beira-mar. Esse edifício era colocado à mercê das ondas que lhe devoravam. A metáfora da arquitetura naufragando na orla de Salvador levava o expectador a pensar de modo avaliativo. A imagem criada por Caetano Dias era bela, sem dúvida, mas o teor de crítica ao mercado imobiliário baiano e aos valores sociais atuais era muito mais chocante.

 

 

Fig. 1 – Trasnverso de Caetano Dias (2010)

 

 

Aqui, a arte visual está para a arquitetura, como uma abertura crítica em relação à velha ordem. As instalações de Caetano Dias são voltadas para o processo de transformação da forma sócio-cultural urbana. Nessa senda, agrupando preocupações estéticas e racionais, “Inverta”, contém três trabalhos de forte impacto: a instalação de escultura de corpo humano tombado junto à projeção da luz de um lago em um idílico bosque, um livro de artista com fotos de cabeças cortadas feitas de açúcar mascavo e uma sala revestida de ladrilhos com uma figura movente dentro de um poço.

 

 

Fig. 2 – Foto da Exposição Inverta de Caetano Dias (2012)

 

Esse tipo de exposição afeta ao público expectador, visto que as situações amplificam a sensação de algo está acontecendo e de que isso não é nada agradável. Nesses trabalhos, o artista conduz o público por espaços que remetem à permeabilidade entre o público e o privado, chamando a atenção para a rua e a paisagem. Com acerto, o jogo foi preparado de um modo tal que reintroduz o mistério e valoriza a crítica em detrimento da diversão.

 

Sob vários aspectos, na medida em que se usa o espaço da instalação para criar uma tensão experiencial, as obras mantem relação de proximidade com a cidade e a rua. A dupla face das obras não vem criar uma dicotomia. Ao contrário, na prática a atividade artística que surge de uma base intuitiva, amplifica-se com a seleção rigorosa de efeitos, no sentido da crítica comportamental. Caetano Dias supera a atitude centrada numa arte de representação da pura beleza, para problematizar, pela via visual, o ambiente socialmente construído.

 

A partir de uma face visual sedutora, as imagens da arte contemporânea propõem um significado estratégico, que provoca efeitos benéficos no sentido de questionar a realidade. Caetano Dias faz parte de uma geração de artistas que se engajaram numa reflexão cortante, politizando o discurso e evitando a folclorização da cultura local. O artista assume uma visão ampliada da cultura, comprometendo-se com a dimensão social da vida urbana de Salvador e denunciando a perda da qualidade de vida na metrópole. 

 

 

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