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Olhar e (não) ver: os desafios para a análise de um texto fotográfico

22/07/2013 - Girlene Lima Portela

Preparando o terreno: a fotografia enquanto objeto de estudo

Enquanto amante da fotografia, interesso-me em conhecê-la, prescrutá-la. Contudo, enquanto pesquisadora e professora de metodologia da pesquisa, bem sei que não se faz ciência puramente pelo prazer da contemplação ou pela simples “interpretação” do que o olho pode captar, baseado na afetividade. Assim, busco distanciar-me da minha paixão e apelo para a ciência da linguagem e para os olhares dos estudiosos das Ciências sociais para me debruçar sobre a fotografia enquanto objeto de estudo. Nessa perspectiva, me valerei de pesquisas/ensaios de autores que se ocuparam de tal objeto, a fim de entender em que medida ele se inscreve no gênero multimodalidade.
Até então a fotografia foi tema de estudos no campo da Filosofia, da Sociologia e da Comunicação, mas ainda não foi amplamente analisada no âmbito da Linguística, como o atesta Barthes (1984, p.16-17), quando reclama que  
 
Os livros que tratam dela, aliás, muito menos numerosos que relativos a qualquer outra arte, padecem dessa dificuldade. Uns são técnicos; para “ver” o significante fotográfico, são obrigados a acomodar a vista muito perto. Outros são históricos ou sociológicos; para observar o fenômeno global da Fotografia, estes são obrigados a acomodar a vista muito de longe. Eu constatava com desagrado que nenhum me falava com justeza das fotos que me interessam, as que me dão prazer ou emoção.
 
 
Contudo, é possível compreendermos essa lacuna, se considerarmos que a fotografia não foi invenção de um único autor, visto que, segundo a Wikipédia, ela é “um processo de acúmulo de avanços por parte de muitas pessoas, trabalhando, juntas ou em paralelo, ao longo de muitos anos”, o que lhe confere um caráter complexo, se configurando assim num “texto” passível de análises das mais variadas, já que a classificação desta enquanto gênero é muito polêmica, visto que por vezes uma única fotografia pode se inscrever em inúmeras categorias.
Apesar de reconhecer o desafio de adentrar numa discussão polêmica, ao considerar a fotografia um texto, estou ciente da necessidade de defender essa “bandeira”, pois acredito que é urgente nos ocuparmos da análise linguística da fotografia, pois sua importância social em tempos de tecnologia cada vez mais avançada é muito oportuna e relevante, dado o seu caráter multidisciplinar. Para tanto, conclamo fotógrafos, filósofos e analistas do discurso a embasarem tal assertiva.
Inicio esse diálogo com a fotógrafa Margareth Bourke-White (apud RIBEIRO, 2012, p.35-36), quando esta adverte que “só se pode capturar uma imagem uma única vez, num instante singular, pois cada clique da câmara captura um novo gesto, um olhar, um microfragmento do mundo que já não existe.” Considerando esse momento irrepetível, essas inúmeras leituras de um dado momento capturado, defendo que é relevante voltarmos nosso olhar de estudiosos da linguagem para a fotografia, uma vez que esta é a “prova viva” do momento sócio-histórico que vivenciamos/conhecemos/rememoramos, pois “[...] a cada momento da história de uma cultura corresponde um determinado estado geral dos signos. Seria preciso estabelecer quais elementos atuam como suporte de valores significantes e a que regras obedecem esses elementos significantes em sua circulação”. (Foucault, 2001, p.163, apud RIBEIRO, 2012, p. 47).
 
Assim, considerando tais reflexões, buscaremos apresentar uma possível metodologia de análise do texto fotográfico, pois nosso intuito ao eleger a fotografia como objeto de análise é lançar mão de discussões propostas por outras áreas do Conhecimento e aliá-las ao estudo do texto, tencionando preencher a lacuna existente nos estudos de âmbito linguístico-discursivo acerca da fotografia, a fim de ampliar o repertório de possibilidades de modos de “vê-la”.
 
Em busca de um aporte teórico para o texto fotográfico
 
Segundo Greimas (1989), toda manifestação, seja ela uma pintura ou um balé, pode ser considerada um texto. Textos são, portanto, multimodais, ou seja, um conjunto de múltiplas formas de representação ou códigos semióticos que, através de meios próprios e independentes, realizam sistemas de significados.
Maingueneau (2008, p.141), por seu turno, diz que “[...] o texto pictórico, por mais solitário que pareça, pelo simples fato de pertencer à prática discursiva supõe tacitamente um conjunto virtual daqueles com os quais pode ser legitimamente associado”.
Pegando carona na conceituação desse autor, arvoro-me em dizer que a fotografia carrega uma necessidade inerente de análise, posto que ela não precisa da descrição verbal para se fazer um texto completo, já que no dizer de Charles (1995, p.40, apud ADAM, 2011, p.65), um texto não existe “fora do olhar que lhe dirijo, fora da experiência que tenho, fora das operações que faço sobre ele para que ele se torne precisamente um texto”. E, não seria exatamente essa a função da fotografia? Reclamar, por parte do leitor, uma postura de analista, a partir de suas experiências de mundo, de suas impressões de viagem?
Penso que ao olharmos uma foto, evocamos nosso conhecimento acerca da cena retratada para nos auxiliar na compreensão do tempo fugaz, eternizado por alguém que estava lá, que pensou em cada um dos que partilharão daquele momento fugidio, buscando uma sinergia entre o passado e o presente. Isso não seria um texto com alto grau de relações pragmáticas, filosóficas, ideológicas e, por isso mesmo, discursivas?
Nessa linha de pensamento, podemos dizer que qualquer texto que combine vários modos semióticos pode ser visto também como uma instanciação do sistema semiótico e reflete as escolhas feitas pelo seu autor, dentro do contexto onde é produzido. (HALLIDAY E HASAN, 1989).
A partir dessas proposições, podemos dizer que a multimodalidade se refere ao uso de mais de um modo de representação num gênero discursivo. Sturken e Cartwright (2001) dizem que o texto multimodal e especificamente a fotografia tem o intuito de nos afetar enquanto observadores e consumidores, fazendo o uso das nossas capacidades de apreensão dos significados culturais que elas invocam e dos contextos social, político e cultural em que elas são vistas.  
Em relação ao conceito de signo e, por dedução, também de texto, já que segundo Peirce (1993) todo texto é constituído de signos, podemos conceituar texto como qualquer conjunto de elementos que comunica algo, seja ele oral, verbal, musical ou visual (PORTELA, 2004), uma vez que todo texto é capaz de captar informações através dos nossos órgãos de sentido, o que foi também vislumbrado por Marcuschi (2008), quando este concebeu o texto como uma orientação de multissistemas.
A multimodalidade compreende, assim, as diferentes formas de configuração dos significados. O fenômeno se expressa nos diversos gêneros textuais que circulam em diversos meios em uma sociedade e acarretam a necessidade de desenvolver o letramento multimodal. (JEWITT E KRESS, 2003).
Para se classificar um texto como pertencente a um gênero é preciso determinar os fatores pragmáticos que o caracterizariam juntamente com as regularidades que ele pode apresentar quanto à forma, conteúdo e estilo. De acordo com Marcuschi (2005, p. 21), apesar de os gêneros não se caracterizarem por aspectos apenas formais (estruturais ou linguísticos), mas por aspectos sócio-comunicativos e funcionais, não se desprezam as formas, que, por vezes, determinam o gênero. Outras vezes, ainda segundo Marcuschi  (2005) o que vai  determinar o gênero presente será o próprio suporte ou o ambiente em que os textos aparecem. Em um julgamento apresentam-se depoimentos orais, provas, cartas, fotografias, exercendo funções diversas em um discurso, sem por isso deixarem de ser gêneros textuais diversos.
Jewitt e Kress (2003) discutem os conceitos-chave envolvidos na multimodalidade, cuja premissa fundamental é a de que o sentido é produzido, distribuído, recebido, interpretado e reconstruído não apenas pela linguagem falada ou escrita, mas por vários modos representacionais e comunicativos. Por modos designa-se o conjunto organizado de recursos para a produção de sentido, incluindo imagem, olhar, gesto, movimento, música, fala e efeitos sonoros.
Nessa perspectiva, podemos dizer que a fotografia se inscreve na categoria gênero multimodal, dada a sua carga sociocomunicativa, prenhe de significados, demandando inúmeras leituras, uma vez que ela teria, no dizer de Kress et al (1997) um número variado de modos semióticos, que está sempre envolvido em uma determinada produção textual ou leitura, pois todos os signos são multimodais ou signos complexos, existindo num número de modos semióticos diferentes, já que cada modo tem sua representação específica, produzida culturalmente, além de seu potencial comunicacional.  
De acordo com Jewitt e Kress (2003), o signo é a evidência dos interesses de seu produtor no momento da representação e de seu envolvimento com o mundo a ser representado. O signo é também evidência dos interesses de seu produtor na comunicação, seu envolvimento com o mundo social no qual o signo é (parte de uma) mensagem. Isso exemplifica o caráter multimodal da linguagem, que, ao que nos parece, poderia abranger as relações entre textos, ou seja, propomos que se pense na multimodalidade como uma manifestação da intertextualidade, uma vez que o discurso pode se distribuir em formas de representação (modos) diferentes pelos textos apresentados simultaneamente.
 A multimodalidade presente nos textos está muito ligada à atividade do leitor. Corroborando essa assertiva, temos a proposição de Flusser (2001), quando este ensina que decifrar textos é descobrir as imagens significadas pelos conceitos. A função dos textos é explicar imagens. A função da imagem técnica (dentre as quais a fotografia) é a de emancipar a Sociedade da necessidade de pensar conceitualmente. Concluindo sua concepção de texto/discurso, Flusser nos convida a “repensar nossas categorias, se quisermos analisar nossa cultura”. (p. 16)
Nesse contexto, se considerarmos que uma fotografia pode ser concebida como um texto complexo e que esta serve para capturar um instante para dar-lhe status de verossimelhança entre a realidade e a imaginação, é possível asseverarmos que, ao olharmos uma fotografia, é importante valorizar o salto entre o momento em que o objeto foi clicado e o presente em que se contempla a imagem, pois, no dizer de Barthes , a ocasião fotografada é capaz de conter o antes e o depois.
Por meio das fotografias, ainda na proposição barthesiana, também se podem descobrir e obter novas significações que naqueles momentos não estavam explícitas. As imagens são aparentemente silenciosas. Sempre, no entanto, provocam e conduzem a uma infinidade de discursos em torno delas.
Já Sturken e Cartwright (2001, p.10) dizem que “ vivemos em culturas que são cada vez mais permeadas por imagens visuais”, imagens essas que têm uma variedade de intenções e efeitos programados, e consequentemente, “todos os dias praticamos o olhar para tentar entender o mundo”. Dentre essas imagens visuais, a fotografia é uma das mais utilizadas como elo entre o mundo real e a concepção de fragmentos da realidade, capturada em diferentes aparelhos. Com o advento das redes sociais, essa função da fotografia tornou-se cada vez mais latente.
Buscaremos, a partir desse arcabouço teórico multidisciplinar, estabelecer um norte metodológico para nossa pesquisa, o que será apresentado na seção seguinte.
 
Por uma análise da fotografia: percurso teórico-metodológico
Nas seções precedentes, busquei defender a necessidade da acepção da fotografia enquanto texto, visto que ela comunica eficientemente acerca dos dados de uma cultura, além de elementos discursivos e dialógicos, estabelecidos na comunicação entre o autor do texto fotográfico, o momento/cena clicado e o apreciador da foto, sendo que a este último cabe estabelecer os sentidos veiculados, por meio de uma análise dos dados capturados.
Se num texto escrito temos a necessidade da utilização das palavras e da forma como estas se engendram para formar frases, que por sua vez desencadearão um texto coeso e coerente, no texto imagético e mais particularmente na fotografia, temos um conjunto de elementos que, somados, produzem efeitos de sentido, a exemplo das cores, das formas, dos enquadramentos, da quantidade/qualidade da luz, da profundidade etc. Nesse sentido, passamos a estabelecer uma proposta de análise do texto fotográfico, como constataremos, a seguir.
A fotografia enquanto iconicidade: por uma abordagem fenomenológica
Alguns artistas e estudiosos se ocuparam da caracterização da fotografia enquanto objeto de estudo, dentre os quais Roland Barthes, escolhido neste texto para nos balizar na compreensão do que vem a ser fotografia no campo da Linguagem e da Filosofia.
De acordo com esse estudioso, não é possível estudar a fotografia desprezando seu caráter fenomenológico. Nessa perspectiva, Barthes (1984) defende que a foto deve ser vista como uma chave dialógica, propondo uma melhor percepção da importância dos conceitos de conotação/denotação, claro/escuro, studium/puctium, além do conceito de "indice", que é desenvolvido posteriormente nos estudos de Krauss, de Schaeffer e de Dubois. Tais conceitos não apenas têm sido utilizados no campo da arte, mas vem permitindo o uso da fotografia de modo crescente nas ciências sociais.
Das funções referenciais da linguagem
Para a melhor compreensão de uma fotografia, enquanto texto é salutar nos valermos também das funções propostas por Roman Jakobson. No caso da análise de uma foto, a função referencial estaria relacionada aos dados acerca do fotógrafo, da câmera, da cena, dos aspectos histórico-geográficos etc. Já as funções emotiva/poética/fática estariam relacionadas à intenção do autor da cena retratada e da aceitação do leitor da fotografia, no que tange a seu poder de captação/deslumbramento, na captura/aceitação da cena e da emoção que tal cena evoca no seu receptor.
 
Aspectos semiológicos (condições de produção)
 Segundo proposição de Charles Pierce, relacionada aos signos e também defendida por Barthes, conforme visto acima, a fotografia se definiria a partir de três categorias, as quais co-ocorrem numa ordem de importância e dependência umas das outras: o ícone, que é uma representação qualitativa de um objeto (imagem fotográfica), o índice, que caracteriza um signo que se refere ao significante pela causalidade ou pela contiguidade e o símbolo, cuja relação com o significante é arbitrária e definida por uma convenção.
 
Dos elementos de textualidade de uma fotografia: a contribuição da Lingüística textual e da análise do discurso
 
Dentre os sete fatores de textualidade, ao se analisar uma fotografia não é possível desprezar o contexto (situacionalidade), os dados acerca do autor/obra/fotografado/leitor (informatividade/intencionalidade/aceitabilidade), o que Barthes (1984)  definiu como Studium e Punctium, além de outras obras e contextos com os quais a fotografia dialoga (relações intertextuais).
 
Relacionando teoria e prática: Breve análise de uma fotografia
 
Fonte: Google imagens. Acesso em 13/03/2012
Aspectos físicos/estruturais
Autor da foto: Desconhecido
Parâmetros técnicos:
Formato: Grandes Dimensões (24/19 cm)
Câmara: Informação indisponível
Objetivas: Informação indisponível
Cor/ P/B: Preto e branco
A cor é um modo semiótico muito versátil, na medida em que “a cor faz o que as pessoas fazem com ela” (KRESS E VAN LEEUWEN, 2002, p.350). Algumas das funções das cores em um texto são: atrair a atenção, guiar o olho, estabelecer uma atmosfera e estabelecer associações. O poder que a cor tem de focar a atenção do leitor é amplamente reconhecido.
No caso da foto sob análise, a escolha do editor pelo preto e branco tem a intenção de dar um efeito contrastivo, destacando o punctium, no caso a câmara sendo manipulada pelo fotógrafo. De acordo com o Wikipédia, as fotografias em preto e branco destacam-se pela riqueza de tonalidades; a fotografia colorida não tem o mesmo alcance dinâmico. Na fotografia em preto e branco se costuma utilizar a luz e a sombra de forma mais proeminente para criar efeitos estéticos.
Por outro lado, o uso da preto/branco tem a intenção de causar no leitor a sensação de frio e de desolação, contrastando com o esforço solitário do fotógrafo, que se irrompe contra a natureza para registrar algo que será o grau de novidade que povoará a mente do observador, tentando inferir dados relativos à cena que estava sendo retratada. Outra inferência que podemos elencar, através do uso do preto/branco, é a capacidade que tais dados têm de nos remeter ao período sócio-histórico em que a fotografia foi feita. A fotografia nasceu em preto e branco, mais precisamente como o preto sobre o branco, no início do século XIX. 
Temos ainda na escolha dessa foto para análise, no presente texto, a carga emotiva que ela evoca, construída pelas funções descritiva (objeto, cenário e personagens); narrativa (mostra uma ação/cena ou “conta” uma história), simbólica (representa uma ideia); expressiva: expressa emoções e estética: chama a atenção para fatores estéticos e, principalmente, a função metalinguística: fala sobre a linguagem e usa a cena de uma fotografia para “falar” da arte fotográfica, dentre outras “informações” trazidas pela imagem.
É desconstruindo e reconstruindo as relações entre os componentes da imagem que a significação das articulações micro e macrotextuais lhes é atribuída. Na foto em questão, o procedimento relacional mais frequente é o contraste. De um lado a profundidade, amplitude da cena, de outro o ato solitário da personagem. A figura do fotógrafo é nítida e o fundo está fora de foco. Há simplicidade e clareza na apresentação da figura, reconhecível, a de um ser humano, de um homem, mas não de um homem qualquer: de um homem que FOTOGRAFA! Todo seu corpo está em evidência, driblando a enorme poça de água, com sua roupa de domingo. Contudo, sua cabeça não é visível, justamente para elevar a grandiosidade do seu gesto ao “esconder-se” na câmara escura para tornar clara uma cena que merece ser retratada, apesar de tudo.
Assim, podemos dizer que na composição do significado da foto sob análise, encontramos os seguintes elementos formadores: o fotógrafo que clicou a cena (operator), o objeto (spectrum), nesse caso específico a cena captada que traz em seu destaque um “operator” operando sua câmara (aparelho), como o propõe Flusser (2011)[1] e o observador (spectator), no caso todas as pessoas que tiverem acesso à fotografia.
No dizer de Barthes (1984), O fotógrafo lança seu olhar sobre o assunto, ele o contamina e faz as fotos segundo seu ponto de vista. O objeto (ou modelo) se modifica na frente de uma lente. No caso do observador, ele gera mais um campo de significado, lançando todo o seu repertório e alterando mais uma vez a imagem (caráter dialógico e interacional ou mesmo sociocognitivo). Nesse sentido acontece a celebração da intenção com a aceitação, a depender do nível de informatividade de ambos (operator e spector).
Analisando-se a cena (spectrum), em sua função referencial, podemos dizer que ela retrata um fotógrafo disposto a não deixar escapar um momento, mas que em sua empreitada, não contava com a mesma intenção de um semelhante (operator), que produz uma função metafotográfica, numa curiosa reprodução do real. Nesse mesma função, podemos perceber que o resultado obtido corrobora uma outra função: a emotiva, pois com o click desse momento, o fotógrafo escolheu ser representado em sua busca pela imortalidade de momentos por vezes fugazes e irrepetíveis, mostrar a paixão pela arte, se considerarmos as condições nas quais o fotógrafo retratado se encontra para registrar algo que deve povoar a imaginação daqueles que vierem a contemplar seu trabalho.
Assim, podemos dizer que ao lado das funções propostas por Jakobson, temos também a clara intencionalidade e a situacionalidade (BEAUGRANDE E DRESSLER, 1981), que definem os gestos (operator) e a cena retratada (spectrum), que como bem define Barthes, o ato fotogrado/registrado tentará atingir certeiramente o observador/leitor da foto, visto que a cena captada “gera outro significado para o observador; fere, atravessa, mexe com sua interpretação”. (BARTHES, 1984, p.43)
Quanto à função conotativa, não se consegue observar o objeto ou a cena-alvo do sujeito da ação, sendo o autor da foto, bem como o sujeito fotografado ao mesmo tempo o studium (aquilo que o fotógrafo quis transmitir, aquilo que é intencional) e o punctum (quando há um detalhe que não foi pré-produzido pelo autor). Segundo, Barthes, “Reconhecer o studium é fatalmente encontrar as intenções do fotógrafo, entrar em harmonia com elas, aprová-las, discuti-las em mim mesmo, pois a cultura (com que tem a ver o studium) é um contrato feito entre os criadores e os consumidores”. (BARTHES, 1984, p.48)
No que concerne à função fática, o fotógrafo consegue prender a nossa atenção pela escolha feita. A imagem leva-nos a observar atentamente o ambiente, buscando a compreensão da cena. A oposição que existe entre o fotógrafo e sua relação com a câmara e o cenário insalubre (chuva torrencial) que não o impede de querer registrar uma cena, certamente muito importante, constitui um marco forte para esta função, que clama também pela função poética.
Convoco Barthes a amalgamar sua concepção cortante acerca da fotografia, nessa breve análise, quando ele ensina que “A fotografia é capaz de ferir, de comover ou animar uma pessoa. Para cada um ela oferece um tipo de afeto”.
 
Considerações para uma proposta de análise
Após muitas leituras, garimpagem de fotografias para análise e tentativas de compreensão da fotografia enquanto enunciado discursivo, é possível asseverar que a Linguística Textual dá conta, pelo menos em parte, da leitura e dos processos de produção de sentido do “gênero” fotografia, necessitando, contudo de apoio teórico de outras áreas do Conhecimento, especialmente e Filosofia, a Análise do Discurso, a Semiótica e a Sociologia, dentre outros que certamente se mostrarão importantes, à medida que as análises forem melhor se delineando.
 
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Site consultado: http://pt.wikipedia.org/wiki/Fotografia

[1] Filosofia da Caixa Preta: Ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Nesse ensaio, Flusser analisa a importância da fotografia para o mundo contemporâneo, por um lado demonizando-a, por outro a considerando responsável pela mudança de atitude da Sociedade atual.

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