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Graciliano Ramos: o escritor e o homem

04/11/2016 - Eliseu Ferreira da Silva

INTRODUÇÃO

 

Segundo escritos da época, (década de 30 e 40), o romance, mais do que a poesia e o conto predominou na Literatura Brasileira, enverendando-se principalmente pelo regionalismo e pela abordagem psicológica. Os integrantes da segunda geração modernista ou modernismo de 30, não chegaram a causar impacto dado o relevo social que a revolução ocorrida em outubro daquele ano tinha causado no país. Os abalos sofridos pelo povo na década de 30, - a crise econômica provocada pela quebra da bolsa de valores, a crise cafeeira, a Revolução de 30, o declínio no Nordeste, condicionaram a literatura a um novo estilo ficcional, perceptivelmente mais adulto, mais amadurecido, mais moderno, que seria marcado pela rusticidade, por uma linguagem mais brasileira, com um enfoque direto nos fatos, por uma retomada do plano naturalista, principalmente no propósito de uma narrativa documental

Nessa ficção de 30, temos seu auge com o advento do romance nordestino, que correspondeu como nenhum outro aos desejos de liberdade temática e rigor estilístico, caracterizando-se por adotar uma visão crítica das relações sociais, voltados para os problemas do trabalhador rural, para a seca e para a miséria, ressaltando o homem hostilizado pelo ambiente, pela terra, pela cidade, o homem consumido pelos problemas que o meio lhe impõe.

 

GRACILIANO RAMOS: O HOMEM POR TRÁS DO ESCRITOR

 

O crítico Álvaro Lins, em seu Jornal de Crítica (1943, p. 73), ao relatar o ano literário de 1941, discorre sobre Graciliano Ramos e o lançamento da segunda edição de Angústia, dizendo, que a obra representa um caso de estudo crítico muito difícil para aqueles do seu tempo. E afirma:

logo os seus romances nos tentam a confundir, em análises convergentes, a sua figura de escritor e a sua figura de homem. Existem homens que explicam as suas obras, como há obras que explicam os seus autores. No caso do Sr Graciliano Ramos, é a obra que explica o homem. Quero dizer: o homem interior, o homem psicológico

 

De todos os escritores nordestinos, que se revelaram por volta da década de 30, Graciliano Ramos, talvez tenha sido o que soube exprimir, com mais sutileza a difícil realidade do homem nordestino sem se deixar seduzir pelo imaginoso da região. Fazendo com que o psicológico prevalecesse sobre o social, o que Graciliano Ramos investiga é o homem vivendo o drama irreproduzível de seu destino, o homem universal. Para Antonio Candido (1996, p. 9) todo grande escritor é dotado de pelo menos uma destas três preocupações: o senso psicológico, o senso sociológico e o senso estético. Na obra de Graciliano Ramos esses três aspectos se fundem, se confundem e se completam alcançando raro equilíbrio. Transcrevemos aqui uma carta sua endereçada a Marili Ramos, por oportunidade de um conto que esta lhe enviara intitulado Mariana, onde poderemos perceber toda a personalidade deste grande escritor.

 

Rio, 23 de Novembro de 1949.

Marili: mando-lhe alguns números do jornal que publicou o seu conto. Retardei a publicação: andei muito ocupado e estive alguns dias de cama, a cabeça rebentada, sem poder ler. Quando me levantei, pedi a Ricardo que datilografasse a Mariana e dei-a ao Álvaro Lins. Não quis metê-la numa revista: estas revistinhas vagabundas inutilizam um principiante. Mariana saiu num suplemento que a recomenda. Veja a companhia. Há uns cretinos, mas há sujeitos importantes. Adiante. Aqui em casa gostaram muito do conto, foram excessivos, não vou tão longe. Acheio-o apresentável, mas, em vez de elogiá-lo, acho melhor exibir os defeitos dele. Julgo que você entrou num mau caminho. Expôs uma criatura simples, que lava roupa e faz renda, com as complicações interiores de menina habituada aos romances e ao colégio. As caboclas da nossa terra são meio selvagens, quase inteiramente selvagens. Como pode você adivinhar o que se passa na alma delas? Você não bate bilros nem lava roupa. Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne. (grifo nosso) Além disso, não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos. E você não é Mariana, não é da classe dela. Fique na sua classe, apresente-se como é, nua, sem ocultar nada. Arte é isso. A técnica é necessária, é claro. Mas se lhe faltar à técnica seja ao menos sincera. Diga o que é, mostre o que é. Você tem experiência e está na idade de começar. A literatura é uma horrível profissão, em que só podemos principiar tarde; indispensável muita observação. Precocidade em literatura é impossível: isto não é música, não temos gênios de dez anos. Você teve um colégio, trabalhou, observou, deve ter se amolado em excesso. Por que não se fixa aí, não tenta um livro sério, onde ponha as suas ilusões e os seus desenganos? Em Mariana você mostrou umas coisinhas suas. Mas—repito—você não é Mariana. E - com o perdão da palavra - essas mijadas curtas não adiantam. Revele-se toda. A sua personagem deve ser você mesma. Adeus, querida Marili. Muitos abraços para você Graciliano. Você com certeza acha difícil ler isto. Estou escrevendo sentado num banco, no fundo da livraria, muita gente em redor me chateando. (Ramos, 1982)

 

Podemos notar na carta enviada à irmã que a rigidez, a sisudez, o rigor, talvez fruto da experiência de onze meses como preso político, tenham moldado o homem Graciliano Ramos.            Percebemos isso na forma como ele demonstra as observações que sua irmã deveria fazer em respeito ao conto “só conseguimos deitar no papel, os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne” (grifo nosso). Para Graciliano, escrever não é qualquer coisa, é colocar a vida no papel, é trabalho e tem que ser sincero. Não basta ter só a técnica, a técnica sem a sinceridade não é nada. Graciliano Ramos teve uma vida agitada, passou por experiências que o marcaram profundamente, como a prisão por perseguição política e, para muitos, ele era considerado um homem amargo, pessimista, franco, quase rude, e é essa dureza da alma que tentaremos desmistificar em relação à obra Alexandre e outros heróis.

Osman Lins (apud VASCONCELOS, 1997, p.1) diz que o livro Alexandre e outros heróis representa dentro da obra de Graciliano Ramos ‘uma espécie de pausa, de recreio, que se concede este escritor severo, sofrido, tão exigente em relação à forma e tão penetrado do sentido trágico da existência’. O autor de romances e memórias como: Caétes; São Bernardo; Angústia; Viventes das Alagoas; Linhas Tortas; Vidas Secas; Infância; Insônia; Memórias do Cárcere, entre outras obras, também escreveu para crianças, e seu livro de contos, ou causos pertencentes ao folclore nordestino, é considerado por muitos estudiosos literários como secundário em sua obra. Mas mesmos estes contos tiveram o seu valor reconhecido e vem sendo estudado, resgatados e analisados em muitos lugares, pela crítica literária, o que não ocorreu com suas crônicas ou contos populares, como é o caso de Alexandre e outros heróis. Desprezado pelo cânone literário e pela pesquisa crítica-literária, esses contos precisam de uma investigação que procure demonstrar todo o seu potencial, a atualidade a qual pertencem, além de jogar uma luz sobre Graciliano Ramos, o seu fazer literário, as narrativas e o burlesco que circunda as histórias fantasiosas de Alexandre, a cultura popular e o folclore nordestino. O conto popular é rico em ensinamentos, experiências que são passadas de pessoa a pessoa, de geração a geração de uma forma agradável, prazerosa e não utilitarista, além de também nos possibilitar compreender a vida, o ser humano e respeitar as diversas culturas presentes no mundo e é isso que nos faz Alexandre ao narrar as suas histórias

Segundo Vasconcelos (1997. p. 5) “O amor, força capaz de romper a solidão, e integrar o homem na comunhão com o próximo, não foi um elemento conhecido pelos personagens do autor de Insônia”. Afirmação esta, sempre feita pelos estudiosos da obra de Graciliano Ramos, e que não encontra ressonância na leitura de Alexandre e outros heróis. Graciliano Ramos preocupou-se muito por narrar a partir de observações da realidade e dos olhares dele próprio. Para Sonia Brayner, (1978) é famosa a afirmação de Graciliano Ramos, a respeito de uma escrita pontuada pelo autobiográfico: “Nunca pude sair de mim mesmo. Só posso escrever o que sou. E se as personagens se comportam de modos diferentes é porque não sou um só”

O livro de Graciliano Ramos, Alexandre e outros heróis, publicado pela primeira vez em 1938, narra às aventuras de Alexandre, um contador de histórias que “fumando um cigarro de palha muito grande, discorria sobre acontecimentos da mocidade”. São quatorze histórias narradas por ele, a maioria relata feitos que envolve suas capacidades físicas e intelectuais ou sua relação com animais e objetos excepcionais. As histórias são contadas em sua casa, na presença de cinco pessoas, sua esposa Cesária, o cego Firmino, o curandeiro mestre Gaudêncio, o cantador Libório e a afilhada de Alexandre e também benzedeira Das Dores. As histórias são ambientadas no nordeste do país, no meio rural, num tempo passado em que ele e sua família “vivia de grande” e era estimado pelos políticos e vaqueiros da região.

Este passado contrasta com a realidade na qual estão as personagens no momento das narrativas. Alexandre possui “uma casa pequena, meia dúzia de vacas no curral, um chiqueiro de cabras e roça de milho na vazante do rio” (RAMOS, 1997, p. 9). Um recorte necessário pra entender as estórias de Alexandre e sua relação com o autor Graciliano Ramos são as mentiras, aquelas contadas em nossos relacionamentos pessoais, com pessoas que conhecemos e com quem nos relacionamos diariamente, aquelas mentiras contadas a pessoas próximas: por maridos às esposas, empregados aos patrões, filhos aos pais, entre amigos e vizinhos e entre compadres e comadres, como é o caso de Alexandre.

A prática da mentira representada por Alexandre, como já dito, são as chamadas “mentiras de pescador”, contadas com o objetivo de prender a atenção da plateia, nessas mentiras a verossimilhança não é pretendida e, normalmente, elas ocorrem em situações em que não há aparentemente uma hierarquia entre os seus ouvintes e nem há normas sociais sendo desrespeitadas, provocando em nós o riso, este que é um elemento distante da obra de Graciliano Ramos. Segundo Vasconcelos (1997, p. 6), “Poucas vezes se pode rir de seus escritos, e quando isso acontece, é o homem Graciliano que se vê exposto ao ridículo, que serve de chacota para que os outros riam dele. Sabemos que há um traço observável, que se reitera ao longo de sua obra, esse traço se chama angústia”

Todos nós conhecemos o Graciliano Ramos observador do homem e da sociedade brasileira, (que não deixa de dar uma cutucada na sociedade com esses causos), o crítico literário (vide a carta à irmã Marili), o Graciliano que foge aos relatos pessoais, segundo Vasconcelos (1997, p. 9) e do testemunho para aparecer meio despojado, engraçado, inverossímil, ‘mentiroso’ nas histórias contadas não para revelar seu lado sisudo, pessimista, biográfico, mas para divertir. A vertente do autor quase desconhecida que deixa de lado a observação contínua da realidade e do ‘homem subterrâneo, ’[a frase utilizada pelo autor Antonio Candido e que aparece no próprio artigo é Bichos do subterrâneo] para deixar vir a tona o riso, a gargalhada solta, as histórias (im) possíveis de Alexandre.

As personagens desse livro são pessoas que acreditam em um futuro melhor, mas também são pessoas marcadas, sofridas, e que já tiveram bons tempos, como conta Alexandre na história de quando voltava da casa de seu sogro a cavalo, com os arreios [Cesária diz que foram os de ouro, e Alexandre intervém dizendo que foram os de prata] de prata e foi picado por uma cobra cascavel de dois metros e meio, o cego Firmino desconfiou do tamanho, mas se deu por vencido quando Cesária foi buscar seu guiso. Como ela não o encontrou, Firmino aceitou apenas seu testemunho como prova. A cobra mordeu o estribo, que era de prata, e depois de alguns dias, quando Alexandre foi montar com a mesma sela, seu empregado disse que não conseguia retirá-la do chão, pois estava presa. Alexandre foi até o local e encontrou o estribo inchado vazando prata. O que aconteceu foi que a cobra picou o estribo e ele inchou devido a seu veneno. Alexandre ganhou muito dinheiro vendendo prata até o veneno ficar velho e perder seu efeito. Vejamos como se deu o causo:

 

 

“[...] um mês depois, com a força da lua o estribo inchava como incham todas as mordeduras de cobras.

Era por isso que ele estava tão crescido e tão pesado.

Mandei chamar um mestre na rua e, com martelo e escopro, retiramos do estribo, cinco arrobas de prata, antes que o metal desinchasse. Isto se repetiu durante alguns anos: todos os meses o estribo inchava, inchava, e, conforme a força da lua, eu tirava dele três, quatro, cinco arrobas de prata.

Seu Libório cantador, mestre Gaudêncio curandeiro, o cego preto Firmino e Das Dores levantaram-se admirados.

—O senhor deve ter ganho uma fortuna, seu Alexandre, exclamou o cantador.

—Um pouco, seu Libório, sempre arranjei algum dinheiro graças a Deus. (RAMOS, 2006, p.49)   

 

Graciliano Ramos estreou como romancista em 1933, com Caétes, uma narrativa da vida provinciana de Palmeira dos Índios, um exercício de técnica literária com características naturalistas, como severamente o autor reconhecia. Em São Bernardo (1934), o seu primeiro romance, verdadeira obra-prima da literatura brasileira. Nessa obra, Graciliano, apresenta uma notável evolução de técnica e de estilo e um significativo aprofundamento na análise psicológica das personagens, onde o resultado é a criação de Paulo Honório, um dos mais marcantes personagens da literatura brasileira, daí seguiram-se Angústia (1936) em que o romancista acentua a preocupação psicológica, servindo-se de avançados recursos expressivos. Só para ficarmos nestes três exemplos, Caétes, São Bernardo e Angustia, encontramos personagens com suas vidas secas (grifo nosso) desanimadas, embrutecidas, sofridas, destruídas, que serviram de inspiração para o ato de contar, a exemplo, João Valério e seu amor por Luisa, e os Caétes; segundo Viana (1981, p.14)

 

O uso de adjetivos, cuidadosamente selecionados, resulta numa comicidade rara em Graciliano Ramos. Talvez não seja exagero imaginar que ele, tão exigente e tão econômico com as palavras, deve ter se divertido usando, numa única página, adjetivos como ‘ingente, infausta, sumos, impudicos, libidinosos, ingrato, aprazível [...] e substantivos como ‘infortúnio, brio, celerado, amante, matrona, urbe [...].

O exagero proposital parece indicar distanciamento que deve ter, da realidade, o indivíduo que pratica um ato dessa natureza. É o ridículo da situação aparecendo, na mesma proporção, no ridículo da linguagem  

Já em São Bernardo, temos a “exploração psicológica de Paulo Honório— que nos permite conhecer o processo vivido pela personagem de tomada de consciência sobre si mesma e sobre o mundo que criou não se dá isoladamente, mas é amparada pelo enfoque político-sociológico do autor, o romance se propõe a contar a vida de Paulo Honório de guia de cego a proprietário da fazenda São Bernardo, vida dura, vida agreste; Já em Luís da Silva, temos a sondagem do mundo interior do ser humano, que se realiza plenamente no romance, Luís da Silva é um funcionário público e escritor frustrado, que vive pobremente, é incapaz de sair da mediocridade em que vive e sente raiva de todos à sua volta, principalmente de Julio Tavares, um homem rico e irresponsável, que seduz sua noiva e depois a abandona; construído com longos monólogos, de modo complexo, o romance Angústia, é uma das mais significativas obras de análise psicológica do modernismo.      

Voltemos a Alexandre, estes personagens, acima descritos, todos criados pelo escritor alagoano, buscam no tecido que narra as suas historias, o conhecimento pessoal, deles próprios, do mundo e dos mecanismos que fazem movê-los. Mostraram os padrões opressores, sociais, políticos, que por terem sido vitimas foram incapazes de se mostrar, se abrir pra o mundo como foram capazes os personagens de Alexandre e outros heróis, por isso esta obra se torna impar dentro da produção de Graciliano Ramos por ter sido aquela que abriu as portas para a possibilidade de voar nas asas da fantasia, ampliar os horizontes de sonhos possíveis através de histórias e sonhar, mesmo quando não restava nada a esses personagens, a não ser o funesto mundo daqueles que habitam o Nordeste, e gastam suas vidas esperando por melhorias políticas, sociais, e humanas. Por isso, optam por devanear, evadir, encantar-se, maravilhar-se por um tempo onde, “a vida foi vivida com muitas posses, tempo de fartura e bonança” (VASCONCELOS, 1997, P. 11).

Os causos vivenciados por Alexandre, na mocidade “um homem cheio de conversas, meio caçador e meio vaqueiro” (RAMOS, 2006, p. 11), homem de posses miúdas, cujas histórias são ‘adivinhadas’ pela esposa Cesária. Sentado no Banco do Alpendre com seu olhar torto, senta-se uma platéia ilustríssima: seu Libório, cantador de emboladas; mestre Gaudêncio, curandeiro; Firmino, cego preto e a afilhada de Cesária, e benzedeira de mau olhado, Das Dores.[1]O público é limitado, assim como são limitadas as posses dos ouvintes.         Nas histórias que Alexandre conta, sempre complementadas pela esposa Cesária, quando a “memória falha”, não temos um olhar voltado para a verossimilhança dos fatos, para a realidade como ela se apresenta, isto é, os personagens estão envolvidos num mundo real, de miséria total, afastados do convívio da cidade e do mundo capitalista e produtivo, não tem posses materiais, o querer, o ter, e o possuir. Para Vasconcelos (1997, p.11-12), “Desprovidos de recursos, fincados no sertão nordestino, numa penúria total, esse grupo excluído, não obstante elegerá uma outra forma de inserção, de contato com mundo: conviver e suportá-lo pelo poder da imaginação, pelo ato de contar”.

As histórias de Alexandre funcionam como uma espécie de “recreio”, num mundo encantado onde, por ter usado tão abertamente de sua imaginação e de seu poder de fantasia, por não ter testemunhado a realidade e a vivência humana, tal como aparecem em muitas das suas obras através dos seus personagens, que o autor de Memórias do Cárcere se torna outro, diferente, sendo o próprio, mas revelando-se múltiplo. As histórias que Alexandre conta estão à margem, são diferentes das histórias tristes e amargas contadas pelo menino Graciliano em Infância. Nas Histórias de Alexandre, poucas pessoas se identificarão, se reconhecerão, e raros são os seus leitores[2]      

Saindo das narrativas de outros escritos, onde se evidencia um auto-retrato, um testemunho de si mesmo, mais das vezes dos homens, e das relações sociais que os oprimem e marcam a convivência humana, Alexandre e outros heróis buscará ser um livro que ameniza o sentido trágico da existência, que perpassou vida/obra de Graciliano Ramos. Constituídas de quatorze histórias ficcionais, as narrativas de Alexandre tem em comum a inverossimilhança, o distanciamento do real, embora sejam calçadas nele e um nível de miséria só visto em Vidas Secas. “O que diferencia é a busca do sonho, do desejo, da vontade de se libertarem desse mundo que esse grupo de viventes está a procurar” (VASCONCELOS. 1997. P. 14)

A chamada para a viagem para esse mundo fantasioso, imaginativo, aparece no inicio do livro, antes até da apresentação de Alexandre e Cesária. “as histórias de Alexandre não são originais: pertencem ao folclore do Nordeste, e é possível que algumas tenham sido escritas” (grifo nosso). A partir daí, desse aviso, não propriamente no livro, percebe-se sua importância, visto o narrador falar que agora a imaginação e a oralidade entrarão em cena. É o convívio imaginativo, com o mundo real, que faz ressurgir mais um escrito de Graciliano Ramos, e sem a escrita enquanto angústia, labuta, como disse Álvaro Lins. Nas Histórias de Alexandre temos apenas causos contados pelo autor/narrador a seus herois/ouvintes num esforço de Alexandre de recordar o passado, grandioso, aventureiro, experimentado por ele, onde ele “só diz o que aconteceu”, e vai referendar a verossimilhança na palavra escrita, “é possível, que algumas tenham sido escritas”.

O AMOR E A CUMPLICIDADE ENTRE ALEXANDRE E CESÁRIA

Diversos críticos têm apontado, como uma das qualidades de Graciliano, a marca profunda e presente da solidão. Sinal este que o autor fez questão, de pontuar em seus personagens. Até mesmo a solidão de Vidas Secas, que já se tornara visível ainda na estruturação do romance, ou seja, dos capítulos e personagens produzidos separadamente e em tempos diferentes. Para Nelly Novaes Coelho (apud VASCONCELOS, 1997, p. 40) a solidão e a incompreensibilidade presentes nas personagens Gracilianas advêm, segundo a crítica, porque Graciliano Ramos ‘não acreditava na única força que pode ajudar o homem a romper a Solidão e a integrá-lo na comunhão com o próximo. Graciliano, não devia acreditar na possibilidade de o amor existir’.

Além desse ponto descrito pela escritora há outros pontos, que formam uma espécie de barreira, entre a obra supracitada e as outras obras de Graciliano, como: a hierarquização cultural, social [os que têm e os que nada têm; os que possuem a cultura do saber, literária, e os que têm a cultura oral, falada; o patriarcado e do outro lado a massa anônima; o mundo adulto e o mundo da criança, e todos os empecilhos ao amor fraternal, referendado por duas esferas sociais: a igreja e a escola].

CONCLUSÃO

Ao mundo civilizado, organizado, urbano, solitário e egoísta, Alexandre ergue um outro mundo: no seu mundo, todos se conhecem, todos se respeitam e se cumprimentam, numa cordialidade ímpar, à distância, a mudez, a indiferença são elementos desconhecidos dessas pessoas que se reúnem numa comunhão, todos os domingos como numa missa, para ouvir a palavra sagrada, no caso a de Alexandre, que para seu Libório Cantador é um evangelho. A palavra é porta de acesso à comunhão, à amizade, a esse amor mais sincero—“esse casal admirável não brigava, não discutia. Alexandre estava sempre de acordo com Cesária, Cesária estava sempre de acordo com Alexandre” (RAMOS, 2006, p. 11)

 

REFERÊNCIAS

BRAYNER, Sônia.  (org.). Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978, (Fortuna Crítica, 2)

CANDIDO, Antonio. Os Bichos do Subterrâneo. In: Tese e Antítese. São Paulo: Cia Ed. Nacional, 1964, p. 96-118.

CANDIDO, Antonio. Graciliano Ramos. 4º Ed. Rio de Janeiro: Agir, 1996. (Nossos Clássicos)

LINS, Álvaro. Jornal de Crítica, 2º série. Rio de janeiro: José Olympio. 1943

RAMOS, Graciliano. Alexandre e outros heróis. 49º Ed. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2006.

RAMOS, Graciliano./ Seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico e exercícios por Vivina de Assis Viana. —São Paulo: Abril Educação, 1981 (Coleção Literatura Comentada)

RAMOS, Graciliano. Cartas/ Graciliano Ramos. — Rio de Janeiro: Record. 1982

VASCONCELOS, Francisco Fábio Pinheiro de. Hora do Recreio: O mundo encantado de Alexandre e (seus) outros heróis. Dissertação (Mestrado em Letras e Linguistica). Salvador- UFBA, 1997.


[1]Histórias de Alexandre, em que se ressalta o tema da malandragem, em versão satírica, popular e nordestina, já foi associada, erroneamente, à figura de Getulio Vargas, o presidente malandro. Essa associação se deve à tentativa de alguns ensaístas de aproximar o escritor com o estado Novo. Ricardo Ramos, filho do escritor, assim se posiciona sobre essa aproximação: “como explicar que a figura de Alexandre, em todos os seus traços característicos, se mantenha viva até hoje no televisionado programa de humorista famoso? [Refere-se Ricardo ao programa de Chico Anísio, e ao personagem Pantaleão] Pela sua verdade folclórica, ou pela evocação de um Getúlio há tanto desaparecido? Convenientemente, esquecem de mencionar as obras Vidas Secas, Infância, ou A terra dos meninos pelados, escritas no período. In: RAMOS, Ricardo. GRACILIANO: retrato fragmentado. São Paulo: Siciliano, 1992, p. 218-219. Talvez essa associação infundada se deva ao fato de ter Graciliano Ramos colaborado na Revista Cultura política, ter sido inspetor de ensino e também ter escrito algumas crônicas e contos na revista luso-brasileira Atlântico, revista subordinada ao Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo. Para nós essa tentativa de ligar o escritor ao Estado Novo além de infeliz é pueril, um grande desrespeito à figura do mestre do escritor que certa vez disse: “se não me censurarem, público até no Diário Oficial”.

 

[2]Há um desconhecimento total desta obra, tanto por parte dos leitores de Graciliano, bem como, pelos estudantes dos cursos de letras. Isto pode ser verificado pedindo-se aos referidos leitores uma lista dos livros já lidos do aludido escritor, e perceber-se-á a supressão desse livro. Por parte dos críticos, poucos são os artigos conhecidos entre nós sobre esse livro. A ausência de referências é quase total. Ricardo Ramos no seu livro, nos diz: “ao escrever Histórias de Alexandre, muito a sua maneira, ficava repetindo que era um livro menor [assim como também dizia sobre a permanência de sua obra, “Não vale nada, a rigor, já desapareceu”]; simples aproveitamento de temas folclóricos, insignificantes. De tanto ouvir aquilo, o inadvertido Aurélio Buarque um dia concordou: “Francamente, homem, não se compara mesmo, aos seus romances”. Foi o suficiente. Sempre que se referia a Alexandre, ele acrescentava: -Aurélio não gosta. In: GRACILIANO: retrato fragmentado    

  • Eliseu

    04/11/2016

    Obrigado pró pela confiança e pelo espaço e desculpa por não estar devidamente de acordo as regras da Abnt.Depois lhe envio outros

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