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Quando um “amigo” se torna inimigo

31/01/2019 - Angelo Riccell A. C. Piovischini

“Parece-me que arrancam o sol deste mundo, esses que afastam a amizade das suas vidas”. (Cícero, 106 a 43 a.C.)  

Talvez, o caso mais clássico de inimizade na história ocidental seja o do deus de Israel, Javé, e seu opositor, Helel, o anjo que viria ser chamado de Lúcifer, caído e expulso do paraíso porque quis sobrepor-se ao trono do deus do povo judeu, fato mencionado pelo texto bíblico da mitologia judaico-cristã.

Notoriamente, a inimizade não é um fato incomum entre nós. Ela está presente em todas as culturas das sociedades humanas. A inimizade possui as mais variadas origens e causas e em sua forma mais extrema pode promover o ódio, a guerra, o genocídio, o holocausto; enfim, a destruição.

Muito provavelmente, todos nós experimentamos, em algum grau, o sentimento de inimizade em face das mais variadas razões antagônicas as quais definem nossa estada neste plano. De outro modo, podemos ser vistos, em razão de nossas posições sociais e ideológicas, como inimigos de alguém, de uma casta ou de uma ordem.

O importante é sempre termos em mente que o sentimento de inimizade é comum à espécie humana, embora, devamos evitá-lo e lutarmos sempre por relações cada vez mais solidárias e fraternas, certamente, porque fazer inimigos é minar o bem-estar de nossa psique. Não precisamos viver como se fôssemos hienas e leões num incessante jogo de competições malfazejas.

 

Às vezes, entretanto, a inimizade pode ser uma necessidade moral. Muitos de nós somos inimigos do governo que destroça os direitos dos trabalhadores neste exato momento da nossa história no Brasil. Muitos de nós somos igualmente ferrenhos inimigos da Justiça que persegue o Presidente Lula, fazendo dele um preso político, violando os seus direitos mais básicos, condenando-o sem provas, humilhando-o diante de todo o mundo em razão de interesses e de projetos espúrios de poder, de domínio e opressão.

Do mesmo modo, é um posicionamento moral sermos inimigos de castas tão perversas e hediondas quanto o é, por exemplo, o judiciário brasileiro. Contudo, num plano mais microestrutural, é uma questão moral sermos inimigos daqueles que tentam a todo custo nos destruir, nos difamar, promover a nossa derrocada, o nosso apagamento enquanto identidades que se estabelecem e se movimentam pela diferença e até mesmo tentam promover o nosso exício. Para aqueles que se colocam como inimigos o perecimento do Outro é a sua glória maior, portanto, protejamo-nos. Antes de tudo, autopreservar-nos é fundamental.

Vale ressaltar que mesmo que a inimizade seja uma realidade comportamental inegável entre nós seres humanos, devemos lembrar-nos de que nenhum amigo verdadeiro suportaria viver entre o peso de aspas. Portanto, nunca deixemos de acreditar na amizade e em sua capacidade curativa de nossa alma.

Bem, talvez, algumas das relações às quais estamos submetidos nos façam crer que a amizade seja um bem “biodegradável” e pouco confiável. Mas, por quê? Por que a inimizade está tão presente entre os comportamentos humanos? O que poderia levar um amigo a tornar-se inimigo? Talvez possamos elencar alguns fatores que nos levem a entender o porquê do surgimento da inimizade em algumas das relações mais próximas e cúmplices.

Comecemos apontando o dedo para o espectro peçonhento da inveja. Certamente, a inveja é capaz de envenenar a mais bela das amizades. Por isso, elencamo-la como o primeiro de vários fatores que pode promover a inimizade. Este sentimento virulento é visto pelo mundo cristão como um pecado capital. Fora da dimensão religiosa, a inveja é uma violação de códigos éticos que nos mantêm harmoniosamente coesos e equilibrados.

Não é demais dizer que a inveja é tóxica, violenta e extremamente perigosa. A inveja pode levar um indivíduo a atos extremos como ao suicídio ou mesmo ao assassinato. Portanto, a inveja configura-se como um dos fatores que pode fazer com que alguns dos mais amados amigos tornem-se ferrenhos inimigos, ainda que em silêncio ou nos vultos da falsidade.

Por outro lado, é preciso chamar à atenção para o fato de que o diálogo ainda é o melhor caminho para lidar com o sentimento de inveja. A confissão sincera desse sentimento espurco pode ser um lenitivo e um começo terapêutico para livrar-nos desse avantesma venenoso.

O despeito é outro comportamento sintomático que pode despertar a inimizade entre alguns daqueles que se dizem amigos. Comumente o despeito está muito próximo da inveja e é um triste sinônimo de melindre, rancor, ressentimento, mágoa. As razões que podem despertar o despeito são diversas, desde a própria inveja até mal entendidos desnecessários.

O despeitado jamais aceitará as razões do Outro, vai sempre querer estar certo e dificilmente se proporá ao diálogo benfazejo e reconciliador. Lidar com o despeito é tão desafiador quanto lidar com a inveja, uma vez que ambos os sentimentos se retroalimentam. O melhor caminho, nesse caso, é o distanciamento respeitoso e preventivo para, depois de um tempo, quando possível, criar-se uma abertura para futuros diálogos e entendimentos.

A maldade desponta como outra possibilidade para que certos “amigos” se tornem inimigos. É claro que podemos escolher os nossos pares e que muitos de nossos amigos serão nossos anjos da guarda por toda a nossa vida. Contudo, não raro, podemos nos enganar e nos deixar aproximar de pessoas intoxicadas pela maldade que, ainda assim, guardam por nós algum apreço e admiração, porém, só até contrariarmos algumas de suas posturas e interesses.

Nesses casos, podemos dizer que estamos cercados também de muitos pseudoamigos. É triste ter que assumir isso, mas, a amizade e a inimizade não são, todavia, parte da realidade humana? Os pseudoamigos são pessoas que silenciosamente nos perscrutam, nos sondam e convivem conosco sempre em uma relação utilitária. Fingem-se cuidadosos e preocupados, mas, estão na verdade desejando o mal a seus pares. Para essas pessoas enquanto as servirmos seremos bem-vindos, com vírgulas e pontos. A bem da verdade, a maldade é um aspecto sombrio da vida humana porque ela pode mostrar o pior de nós mesmos, o nosso lado mais abjeto e vil.

Dizem que felicidade atrai felicidade. Bem, é claro que atrai, mas, infortunadamente, nem sempre. A felicidade pode, infelizmente, atrair muita atenção e com essa atenção despertar muita inveja, muito despeito, muita maldade. O fato é que isso não é razão para que não busquemos a felicidade a diário. Indubitavelmente, não há escudo melhor contra a maldade dos nossos desafetos do que um sorriso leve, despretensioso e cheio de felicidade! É de matar os que nos detestam.

Ora, a felicidade é um bem quotidiano que se vive no presente. Ela, entretanto, pode atrair a atenção de alguns infelizes e esses, como zumbis, muita vez, querem nos arrastar para o poço de seus infortúnios. Obviamente, todos nós experimentos algum tipo de infelicidade com muita freqüência em nossa vida, mas, não é dessa infelicidade que falo, falo da infelicidade que rebrota crueldade e desprezo pelo Outro. Este tipo de infelicidade funciona frequentemente como um buraco negro que tragará para dentro de si todo bom sentimento que puder. É preciso estar atento e forte! Resistir à infelicidade nos faz mais capazes de cultivarmos amizades boas e duradouras.

Muitas pessoas infelizes e maléficas, muitas das quais se disfarçam de amigas, buscam nos envolver em suas energias deletérias de desgraça ao invés de buscar em nós um aconchego espiritual, uma palavra amiga para suas dores. A priori, esse tipo de gente infeliz é autossabotadora, e se se autossabotam, poderão também tentar nos sabotar. Dizem que um ser infeliz e cruel dificilmente se importa com a felicidade de outrem, o que parece ser bem verdade. A experiência não nos deixa mentir. Mas, não percamos a nossa capacidade de compaixão e misericórdia, afinal, nunca sabemos se vamos nos tornar infelizes. Vale frisar que estes tipos de infelizes, antes de tudo, são extremamente egocêntricos e voluntariosos. Assim, a infelicidade, pode ser também um dos fatores que gera inimizades. E como pode!

Novamente, é preciso reiterar que as generalizações não dão conta de toda a verdade. É sempre preciso que estejamos atentos ao contexto. Por isso, que esteja claro que acredito na amizade! A amizade é um sentimento real. Ela é o que justifica grande parte de nosso sucesso enquanto entes dotados de humanidade, mas, não raramente somos acometidos pela infelicidade de seres que tentam a todo custo nos arrastar para o seu cosmos de escuros, sombras e dores, muito embora, todos nós estejamos suscetíveis a umbrais da moralidade.

Aliás, a infelicidade é uma enfermidade da alma, uma enfermidade muito grave, especialmente se essa infelicidade estiver eivada do sentimento de revanchismo contra todos e contra tudo. Muitos infelizes querem que naufraguemos com eles. Cuidemo-nos! E se for necessário gritemos: _Ah, infeliz! Se eu puder te ajudar estendo-te a mão, mas, se queres mesmo afundar que afundes sozinho!

Tenho amigos e amigas que quero perto de mim para o resto da minha vida. Vejo neles pessoas maravilhosas com todas as suas qualidades e defeitos. Um amigo não tem que ser perfeito, um amigo tem que ser amigo. E cá entre nós, quando a amizade brota do coração os espíritos se irmanam até os confins dos tempos. Por isso, ainda que saibamos que a inimizade é um sentimento real, precisamos ter ainda mais certeza de que a amizade é um sentimento que se renova a cada gesto sincero de bondade e de entrega. Dito assim, a amizade jamais deixará de ser um santuário para o que se amam e se merecem.

Outro aspecto capaz de fazer com que certos "amigos" se tornem inimigos é o desentendimento. Desentender-se é tão comuns quanto beber água. A questão é quando a razão do desentendimento abre cancelas para o ódio e a mágoa profunda. Não há desentendimento se há espaço para relações dialógicas. É conversando que a gente se entende! Não há outra forma mais eficaz e mais célere para resolvermos as nossas picuinhas diárias, os nossos conflitos, os nossos desentendimentos. É ter maturidade emocional para dialogar assertivamente sobre o que for preciso e necessário para que a amizade jamais se torne inimizade.

O ideal é não deixarmos que o desentendimento tome proporções que não possamos controlar. Quanto mais rápido, mais sincero, assertivo e maduro for o diálogo mais eficaz será a dissolução dos desentendimentos e dos problemas advindos deles.

Muitas “amizades” se tornam inimizades por conta de intransigências que geram monstruosas barragens de rejeitos de ódio prestes a destruir todo e qualquer sentimento de afeto pela frente.

Se a alma não é pequena, o diálogo sempre vale à pena. Não precisamos ser Deus e o Diabo e muito menos travar o embate apocalíptico deles. Que se resolvam! Nós somos humanamente frágeis e como humanos imperfeitos e falhos, estamos sempre sujeitos ao aprendizado. É conversando que podemos nos entender, ou pelo menos podemos chegar a uma compreensão comum, a um posicionamento claro e honesto, até quando nos é necessário ser opositor.

Pelo menos, podem-se deixar claras as nossas razões e respeitosamente explícitos os nossos sentimentos. Falar sobre o que nos incomoda não é jamais um gesto de fragilidade ou fraqueza é, antes de tudo, um ato de coragem, um passo a mais na construção de nossa humanidade ainda frágil. Os desentendimentos, certamente fazem de nós seres humanos, além de imaturos, muito inseguros.

Um último ponto, dentre os outros tantos que existem, apontado como motivo da inimizade é o egoísmo. Quem nunca teve um amigo egoísta que atire a primeira pedra! _ Oops! Quase acertam a minha testa. Vai que, né?

O egoísmo é um sentimento muito mesquinho. Certamente, há níveis de aceitabilidade para o egoísmo e, não confundam egoísmo com autopreservação e valoração de si mesmo. De modo geral, pessoas somíticas são naturalmente ruins e sofrem por sua condição e, em razão de suas posturas usurárias e de seus sentimentos tacanhos, acabam por afastar muitos de seus possíveis amigos e mesmo transformando-se em inimigas violentas de seus afetos.

O egoísmo é a ausência da alteridade. Esse sentimento além de causar o aprofundamento de inimizades faz com que as pessoas se individualizem de tal forma que perdem a sua capacidade de compreender que nós humanos não podemos sobreviver harmoniosamente fora de uma coletividade. Se fôssemos excluídos do convívio comunitário nós perderíamos aos poucos a nossa condição de humanidade. Tornaríamo-nos animais selvagens sobrevivendo meramente pelo instinto, isso se sobrevivêssemos à selva.

Cultivar o egoísmo é dar um tiro no próprio pé. Quanto mais capazes de nos colocar no lugar do Outro em nossas relações interpessoais, mais felizes, mais plenos, mais humanos seremos. O diálogo é uma das vias salutares para que construamos esse mecanismo de respeito a nós mesmos e ao Outro. Não seremos, naturalmente, jamais perfeitos, mas, podemos construir espaços coletivos de bem-estar e desenvolvimento intra e interpessoal. Só somos egoístas se o nosso espírito ainda for apequenado e fracassado, mas, não sintamos culpa. É preciso ir se reconstruindo, aprendendo e buscando oferecer para nós mesmos e para o mundo o melhor que temos.

Há muitas razões outras pelas quais determinados “amigos” se tornam inimigos. Acredito, entretanto, que o foco é mantermos acesa a chama da amizade sempre. Quão bom seria se tivéssemos a capacidade de sempre resgatarmos uma amizade perdida. Se assim o fosse, a inimizade estaria agonizante e sem espaços importantes em nossa vida.

Portanto, apesar dos pesares, apesar das decepções, apesar das traições, apesar de todo o degredo humano quando se trata de bondade e amor, é preciso acreditar na amizade, na construção de relações solidárias e saudáveis, de relações cooperativas e amáveis, de relações fraternas e sinceras. A amizade é o santuário da alma e nela estão depositados grande parte de nossos mais nobres sentimentos.

O amor, por exemplo, é o maior receptáculo da amizade. Aliás os vocábulos amor, amigo e amizade são palavras com uma única raiz para um sentimento que se espraia nos recônditos mais profundos de nosso espírito faltante e desejante.

A inimizade é, portanto, a ausência do amor, do amor que devemos cultivar nas ações quotidianas, no diálogo necessário, na compreensão das fraquezas e falhas do Outro, porque nós somos também esse Outro em diferentes espaços de fala e ação. Não podemos ter a assunção presunçosa de que só o Outro está sujeito ao erro, de que só o Outro é falho, de que só o Outro tombará, de que só o Outro se equivoca, de que só o Outro ofende, de que só o Outro se embriaga de maus sentimentos. Estamos todos num mesmo barco chamado mundo e essa ausência de amor é o que ainda nos impede de termos e sermos uma humanidade plena.

Finalmente, reconheçamos que a inveja, o despeito, a maldade, a infelicidade, o desentendimento e o egoísmo são algumas das facetas da ausência do amor em nós. Quando formos capazes de superar esses sentimentos tóxicos seremos seres melhores e com a grandeza necessária para compreender o Outro em suas mais diversas esferas, ou seja, seres amigos plenos. Se a ausência do amor nos traz o risco de inimigos, a presença da amizade nos abre portais para o mais profundo amor e uma vida mais saudável e feliz. Enfim, entre sombras e escuros sempre vale muito à pena a luz carinhosa de um grande amigo.

  “Um amigo só se torna inimigo quando há ausência de amor, pois que, até o radical da palavra inimigo é um morfema defectivo”. (A. C. Piovischini, 2019)

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