Girlene Lima Portela | LinkedIn Acompanhe no Twitter Curta no Facebook Visualize no Flickr Assista no YouTube
 Artigos
1 2 3 4 5 6 7 Próxima >>

Nascimento e morte(?) do Tropicalismo

13/03/2011 - Girlene Portela

Marcada por momentos de extrema criatividade, em todo o campo das artes, a Tropicália surgiu como uma necessidade de resgate de tudo o que estava desgastado pelo tempo e pelo uso, ou ainda pelo comodismo gerado pelo medo da mudança e das implicações que uma reviravolta poderia gerar. E, contrariando todas as expectativas, todos os dogmas, eis que nasce um novo momento para o campo das artes e, especialmente da música, que já não era mais tão somente a música feita por profissionais, e passa a ‘permitir’ a inserção de músicos “desespecialistas”, como denominou Tatit (1996), renascendo a canção e todo seu lado criador, como que para suprir as carências e as lacunas deixadas por movimentos musicais e artísticos anteriores, surge uma nova concepção musical: a canção e os cancionistas com sua criatividade a toda prova, abrindo caminho com os mais diferentes e inusitados instrumentos, tanto musicais quanto verbais. Está decretada a Tropicália e todo seu arsenal de resgates e inovações.

Passado o momento da vanguarda musical, era preciso que todo aquele arsenal fosse ‘guardado’, para que suas mais ricas criações não fossem desgastadas pelo uso excessivo; era preciso que aqueles novos recursos artísticos tivessem um lugar de destaque e não viesse a ser mais um movimento, era preciso que ele continuasse vanguardista, ‘prafrentex’ e, antes mesmo que pudesse cair no gosto popular e viesse a freqüentar todos os salões de baile e festas de todas as classes sociais, seu fim (?) foi sumariamente decretado, para que o gostinho de quero mais pudesse dar vazão a comentários, para que o material produzido pudesse ser guardado como relíquia de um tempo que não volta mais, e, o tiro não saiu pela culatra. Foi exatamente assim que o Tropicalismo passou a ser matéria obrigatória em acaloradas discussões acadêmicas, gerando inúmeros trabalhos, desde aquela década até hoje, trinta anos depois.

Mas como “quem está na chuva é para se molhar”, mesmo diante de tantos momentos difíceis como aqueles vividos, anteriormente na prisão e depois em ‘liberdade’ em lugares estranhos, muito foi apreendido, aculturado, e, seguramente guardadas, aquelas experiências logo viriam a produzir excelentes frutos, nascendo (ou reciclando?) um momento diverso do primeiro, em que já não se cultuava a gente simples, as religiões cristãs, as belezas tropicais e os costumes; era preciso que o mundo e os seus problemas fossem trazidos para a realidade, como não poderia ter um mecanismo mais eficaz que a canção, ela era (e sempre será) o meio mais rápido de disseminação de valores, ideologias, modismos, enfim de propagação de idéias das mais diversas, ela logo estaria a serviço da ‘juventude transviada’. Uma vez mergulhados em crises existenciais, particípes de todo tipo de crença e de experiências, os artistas procuravam trazer para o âmbito de suas produções, a preocupação com os novos rumos, não só que o país mas todo o mundo estava tomando, que vivia na era da realidade nua e crua, mostrada pelos meios de comunicação de massa que procurava, a todo custo, pregar o lema “O sonho acabou”. Greves, protestos e ocupações de Faculdades substituem as aulas, os jovens saem em busca de Deus no misticismo oriental e recorrem ao LSD para superar frustrações momentâneas. Há o rompimento total com a família e a tradição.

(...) A meta agora é a procura desesperada de afirmação em todos os campos: na pintura, no cinema, na moda e, principalmente, na música. (Ferreira, 1985, p. 50) E os jovens tropicalistas não poderiam ficar de fora de todo esse contexto e, organizando shows provocativos, com muita cor, som e indumentárias esdrúxulas, que denotam o momento de transição musical e lúdico no ambiente da MPB. Segundo Ferreira (op. cit. 51), “no Brasil, na época da Tropicália, happenings e festivais quase sempre andam juntos (...) a informação sonora começa a aflorar, num esforço de renovação, enfatizando o trabalho de Cozzela e Duprat, Júlio Medaglia e Eleazar Carvalho”, nomes que muito contribuíram para o sucesso musical dos tropicalistas, com seus arranjos geniais. Junto aos baianos Gilberto Gil e Caetano Veloso, aos irmãos Campos e a Décio Pignatari, os arranjadores conseguem com sua arte, mexer com aqueles que viam na música erudita a perfeição, o inimitável, o definitivo, ou, na música popular, o nacionalismo sagrado e ideal (cf. Ferreira, 1985, p.52) Rogério Duprat (Apud Ferreira, op. cit.) é quem nos situa com relação ao papel desempenhado pelos tropicalistas para as mudanças que aqueles nomes imprimiriam à música, a partir de então: “Uma das grandes coisas do Tropicalismo era tentar recuperar a brasilidade tipo Rádio Nacional, o cafonismo. A gente queria jogar diante da classe média intelectualizada a relatividade de suas próprias idéias”

Diferentemente do Tropicalismo e toda sua onda de ‘resgates’ nacionais e internacionais, através da paródia, a década de 70 foi marcada por experimentalismos e ousadias que inúmeras experiências permitiam e o mundo era a meta, mesmo se ele trouxesse as agruras, os dissabores, a modernidade e suas conseqüências, a exemplo das drogas, da poluição, da degradação dos valores morais. Era preciso que tudo fosse discutido, cantado, analisado. E na ânsia de mostrar os estragos feitos por essa modernidade, o araçá, antes verde e depois amarelo (as cores do Brasil), fica azul (Araçá Azul fica sendo o nome mais belo do medo- Veloso, LP Araçá Azul, 1972), as figuras ilustres que alertam para a destruição (Até a Revista de Walt Disney contra a poluição- Veloso, mesmo LP) e até os mais ilustres desconhecidos são temas de canções (“Gente”) os nativos (“Jóia”, “Um Índio”), dentre tantos outros temas amplamente discutidos naquela década de implantações e mudanças.

Deixe seu comentário
Visual CAPTCHA
 
 

LINGUAGENS

  • Carta a D. História de um Amor (André Gorz)

    Narra a história de um casal real, de um amor real, que transcende o entendimento do que v...

    CONTINUE LENDO
  • O Clube do Filme (David Gilmour)

    Um crítico de cinema utiliza dos seus conhecimentos sobre o tema para, através de f...

    CONTINUE LENDO
Interaja Conosco
 
A criação da roda sob a ótica de estudantes de matemática

Invenção da roda, matemática, Letras, Laboratório de pesquisa

Trabalho realizado por um grupo de estudantes de matemática, na disciplina Laboratório de pesquisa e produção de textos, sob minha orientação, a qual tem rendidoexcelentes trabalhos de intersecção entre a matemática e a linguística.

Álbuns
® Girlene Portela - 2020. Todos os direitos reservados. Bahia - Brasil Desenvolvido por Otavio Nascimento