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As contribuições da Retórica para a produção textual

15/03/2011 - Girlene Portela

 A base de qualquer processo de interação é a discursividade, visto que o seu ponto de partida está centrado num certo acordo entre interactantes. Assim, o processo argumentativo é fruto de um acordo prévio entre o falante/escritor e o seu interlocutor/leitor. Esse acordo, segundo Perelman (1979), exprime-se nas premissas da argumentação. Assim, sendo a argumentação um discurso que se insere numa troca interlocutória recíproca ao nível da sociabilidade, terá de pressupor, ou partir de um acordo sobre o que quer que seja. Daí a importância de nos valermos dos princípios propostos pela Retórica[1], que sempre primou pela qualidade na veiculação de idéias e de valores. A Retórica Moderna[2] visa estudar as figuras e técnicas de argumentação, a organização do discurso, os procedimentos que facilitam a adesão, a articulação dos raciocínios. Dentre as estratégias da Retórica (compreensão acerca do estudo do conteúdo e da forma), têm-se o desejo de propor uma visão da realidade que corresponda aos desejos e às necessidades do emissor, além de buscar atingir sua sensibilidade e se antecipar aos seus interesses, daí elegermos a analogia, a metáfora, os exemplos e modelos como recursos argumentativos, que podem auxiliar nossos estudantes em suas produções textuais. Ao se elaborar questões no enfoque discursivo, consideram-se alguns processos que envolvem o efeito que o texto tem sobre o leitor. Esses processos são: antecipação (respostas a questões antes de ler o texto); transformação (solicitação de soluções diferentes); inferência (relacionamento da visão de mundo do autor e do texto com os conhecimentos do leitor); crítica (julgamento dos fatos e situações, reconhecimento das marcas linguísticas e avaliação dos argumentos); extrapolação (idéia principal e suas relações com outras idéias); situação-problema (proposta de soluções relacionadas ao tema); e, efeitos, intenções e emoções (sensações provocadas pelo texto).

Dentre os recursos pragmáticos/discursivos propostos pela nova retórica, acreditamos que a analogia é um dos procedimentos mais utilizados pelo raciocínio, pois ela estabelece uma relação de similitude entre duas relações que unem duas entidades. Por isso, a analogia pode fundar uma metáfora. Assim, é importante que se ensine escrita partindo de conhecimentos prévios e de argumentos por autoridade, pois um texto analógico é aquele que, para facilitar a compreensão do assunto, é estruturado de modo a explicar algo desconhecido ou algo não-familiar por meio de algo familiar. Outra maneira de se ensinar a escrever, eficientemente, é baseando-se em exemplos, ou seja, criando ligações argumentativas que, no dizer de Perelman, fundamentam a estrutura do real, através de um caso particular (exemplo, ilustração, modelo e anti-modelo), mas também do raciocínio por analogia, o exemplo  permite a passagem do caso particular para uma generalização, o que se configura num recurso mais ambicioso do que a ilustração com a qual se espera, sobretudo, impressionar. A dissertação tem como propósito principal expor ou explanar, explicar ou interpretar idéias; visa, sobretudo, a convencer, persuadir ou influenciar o leitor/ouvinte. Nesse tipo de texto, o autor procura convencer o leitor, formar-lhe a opinião pelas provas com que vai fundamentando suas declarações, ele então estará dando traços de verdadeira argumentação a seu texto, buscando a adesão do seu leitor, como propõe Barthes. Na organização do texto dissertativo, o aluno poderá valer-se de vários recursos, tais como a analogia, a oposição, o testemunho, a definição, a ilustração e a comparação, conforme discutido anteriormente. Além das contribuições da Retórica, os componentes teóricos para uma boa formação didática na área da linguagem são: conhecimento da natureza da linguagem escrita; conhecimento da natureza dos processos envolvidos na leitura e na escrita e conhecimento da natureza da aprendizagem tanto desses processos quanto da própria linguagem escrita. Para Piaget, a consciência tem um papel fundamental no desenvolvimento cognitivo. Ter consciência de uma operação mental é saber transferir algo do plano de ação para o plano da linguagem. O significado do texto é por nós construído a partir dos dados textuais e de nossos esquemas, visto que nascemos com a impressionante capacidade de armazenar informações, o que é garantido pela função cognitiva, que nos faculta o equilíbrio e a eficiente utilização de informações adquirida nas mais diferentes fontes e vivências, o que no caso da leitura e da escrita, se dá por meio da planificação, do conhecimento partilhado, do contrato social, das nossas experiências e, principalmente, da motivação que temos para a execução de dada tarefa[3]. Muitos são os recursos que alguns pesquisadores cognitivistas (Hayes e Flower, 1981; Hayes et al. 1987; Scardamalia e Bereiter, 1986), e didáticos (Préfontaine, 1998; Poissant, 2005) sugerem para a melhoria da qualidade escritural dos jovens. Entre as quais, podemos destacar a pré-escrita, o rascunho, a revisão, que deve ser feita em diferentes momentos da produção, a escrita de uma versão final e a avaliação (ou auto-avaliação), os quais serão considerados na seção seguinte, aliados à nossa prática docente e às nossas pesquisas desenvolvidas ao longo de dez anos.  


[1] Segundo Platão, a Retórica “é a arte de ganhar a alma pelo discurso”. Já Aristóteles a concebeu como a “faculdade de descobrir em qualquer caso particular todos os meios disponíveis de persuasão”. Modernamente, Barthes a define como uma “metalinguagem cuja linguagem objeto é o discurso”. [2] As transformações registradas na teoria do conhecimento, iniciadas após o Renascimento com René Descartes e John Locke, superaram algumas das idéias da retórica clássica. Nietzsche e filósofos contemporâneos como Thomas Kuhn já não consideram a linguagem como simples espelho da realidade e expressão da verdade absoluta, mas, pelo contrário, acreditam que atua como um filtro que condiciona a percepção.
Devido a essas mudanças na epistemologia, a retórica clássica fornece um modelo capcioso para os estudiosos da linguagem enquanto comunicação ou transmissão de conhecimento. A verdade não é mais definida como idéia prefixada que a linguagem apresenta de forma atraente, mas como idéia relativa a uma perspectiva que é intrínseca à própria linguagem. Pensadores do pós-estruturalismo, que vêem a linguagem como estrutura cultural preexistente, que condiciona o indivíduo, pretendem fazer o exame retórico inclusive de outras formas de discurso relacionadas à linguagem.
Tornam-se objeto desse estudo o cinema, a televisão, a publicidade, o mercado financeiro, os partidos políticos e os sistemas educacionais, estruturas produtoras de discurso e intrinsecamente retóricas, já que instituídas para persuadir e provocar resultados específicos. Outros retóricos modernos compreendem toda comunicação lingüística como argumentação e advogam que a análise e a interpretação do discurso sejam baseadas em um entendimento da reação e da situação social da audiência. ©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.   [3] De acordo com Chomski, em entrevista em sua passagem pelo Brasil, enquanto cientista político, a aprendizagem se dá considerando-se 95% de motivação e os outros 5% estão ligados ao conteúdo.  

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