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Florbela Espanca em perspectiva

01/06/2012 - Juliana de Oliveira Melo e Laurenci Barros Esteves


Juliana de Oliveira Melo[1]

Laurenci Barros Esteves[2]

 

INTRODUÇÃO  

Muitos foram os nomes que se destacaram na literatura portuguesa; quase todos, grandes homens que viveram (ou não) de forma intensa. Porém, poucas foram as mulheres eternizadas na literatura de Portugal, e uma delas é Florbela de Alma da Conceição Espanca, poetisa portuguesa cujas poesias, quase sempre sonetos, são arrebatadoras, vivas, intensas e, ainda, permeadas pelo erotismo.

Dessa forma, este estudo consiste em uma pesquisa sobre a vida e obra de Florbela Espanca, poetisa cuja obra é considerada uma das principais produções literárias em língua portuguesa. Objetiva-se ainda, neste trabalho, expor as principais características da poesia da autora em questão, com base nas considerações de estudiosos de sua obra e, dessa forma, através da análise de uma de suas poesias, identificar as referidas características na produção da autora.

 

 

1 FLORBELA ESPANCA: A GRANDE POETISA PORTUGUESA

 

Moisés (1995, p. 4202) aponta que Florbela de Alma da Conceição Espanca, nascida no ano de 1894, em Vila Viçosa, começou a escrever os seus primeiros versos ainda na época em que cursava o curso secundário, na cidade de Évora, versos os quais foram postumamente compilados na obra “Juvenília”, que data de 1931. Foi infeliz em seus casamentos, tendo passado por três uniões matrimoniais. Publicou, em 1919 o “Livro de Mágoas” e, em 1923, o “Livro de Sóror Saudade”. Ambas as obras, ainda nas palavras de Moisés, não exerceram grande impacto sobre a crítica da época. Faleceu aos 36 anos, casada com o terceiro marido, como uma possível vítima de suicídio.

Embora não deva ser considerada uma autora do modernismo, Florbela Espanca começou a publicar as suas poesias no período em que o movimento modernista, inaugurado em Portugal com a publicação da revista Orpheu (1915), ainda era a principal estética da época (ABDALA JUNIOR; PASCHOALIN, 1990, p. 135-136).

É curioso destacar que, de acordo com o que elucida Régio (1995, p. 171), durante o ano de 1927, em que era publicada a revista Presença, em Portugal, em uma das suas edições falava-se da obra literária como o “fruto” da vivência e das experiências reais pelas quais passara um determinado autor; falava-se da obra como a expressão máxima da dor, do sofrimento ou das alegrias e bons momentos que se manifestariam, assim, na produção literária. Nesse contexto, como justificar, ainda naquela época, a desatenção da crítica e do público para com a obra de Florbela Espanca, tão pessoal e única? Pois Moisés Massaud (1980, p. 312) afirma que, embora a obra de Florbela Espanca tenha passado despercebida por muito tempo, recentemente a poetisa portuguesa:

 

[...] tem sido considerada muito justamente a figura feminina mais importante da Literatura Portuguesa. Sua poesia, mais significativa que seus contos, e produto duma sensibilidade exacerbada por fortes impulsos eróticos, corresponde a um verdadeiro diário íntimo onde a autora extravasa as lutas que travam dentro de si tendências e sentimentos opostos. Trata-se duma poesia-confissão, através da qual ganha relevo eloquente, cálido e sincero, toda a angustiante experiência sentimental duma mulher superior por seus dotes naturais, fadada a uma espécie de donjuanismo feminino [...].

 

 

Florbela era, assim, uma mulher intensa, a qual, durante toda a sua vida buscou o amor arrebatador, um sentimento superior e único, que inundaria o seu ser com sensações indescritíveis. Viveu em uma sociedade repressora e retrógrada em muitos aspectos e, embora em um primeiro momento a obra de Florbela Espanca tenha sido pouco notada em Portugal, com o tempo consolidou-se pela qualidade e pelo requinte das produções da poetisa, mesmo que postumamente.

 

 

 

 

2 CARACTERÍSTICAS DA OBRA

 

Conforme reflete sobre a temática das poesias de Florbela Espanca, José Régio (1995) postula que é recorrente a inquietação que permeia a obra da mesma. Essa insaciabilidade com relação à vida e ao amor se materializam em textos permeados, também, por eroticidade, em sonetos intensos cujos versos retratam o interior da alma de uma mulher viva, intensa, ardente e complexa, a qual, enquanto humana, também não está livre de idealizações do amor e do homem amado, aos anseios da mulher daquela época, bem como, de igual modo, não está livre de momentos de extremo pessimismo e desilusão. Nas palavras de Régio (1995, p. 188-89), “[...] Também, lendo a sua poesia, se nos vai impondo esta impressão de não caber ela em si: de transbordar, digamos, dos limites de uma personalidade”.

É esse “transbordamento” do “eu interior” de Espanca, talvez, um dos elementos fundamentais que constroem a qualidade e a unicidade de sua obra, a qual retrata a sensibilidade e os anseios de uma mulher cujos sentimentos não encontram limites, o que evidencia, da mesma forma, o quão torturada foi a sua alma, visto que os casamentos fracassados e a sua morte trágica permitem inferir que em toda a sua vida, Florbela Espanca buscou encontrar o amor, mesmo que não fosse amada, como retrata a poetisa em poemas como “Sonho Vago”[3] e “Amar!”.

 

 

3 ANÁLISE DO POEMA “ AMAR” DE FLORBELA ESPANCA

 

A produção literária de Florbela Espanca, segundo afirma Régio (1995, p. 176-177), exala perfeição, apuro formal, clareza, sensibilidade, “grandeza estética” e imaginação. Um de seus principais poemas, o soneto “Amar!”, de acordo com Moisés (1995), foi publicado postumamente no livro “Charneca em Flor”, de 1931, e expressa uma das temáticas mais recorrentes na obra de Florbela Espanca: a busca incessante pelo amor.

 

 

Amar! – Florbela Espanca

 

Eu quero amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: aqui... além...

Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...

Amar!  Amar!  E não amar ninguém!

 

Recordar?  Esquecer?  Indiferente!...

Prender ou desprender?  É mal?  É bem?

Quem disser que se pode amar alguém

Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:

É preciso cantá-la assim florida,

Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

 

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada

Que seja a minha noite uma alvorada,

Que me saiba perder... pra me encontrar...

 

O poema “Amar!”, de Florbela Espanca, é um soneto composto por versos decassílabos. Nele, há a presença de rima, disposta da seguinte forma: no primeiro quarteto, ABAB; no segundo quarteto, por sua vez, ABBA; no primeiro terceto, CCD e no segundo terceto, CCD. Desse modo, a palavra “perdidamente”, no primeiro verso, rima com a palavra “gente”, no terceiro verso; a palavra “além”, no segundo verso, rima com a palavra “ninguém”, no quarto verso. No segundo quarteto, a palavra “indiferente” (verso 5) rima com a palavra “mente” (verso 8); a palavra bem (verso 6), rima com a palavra “alguém” (verso 7). No primeiro terceto, a palavra “vida” (verso 9), rima com a palavra “florida” (verso 10), e a palavra “cantar (verso 11), rima com a palavra “encontrar” (verso 14); a palavra “nada” (verso 12), rima com a palavra “alvorada” (verso 13). Todos os versos do soneto são decassílabos, com 10 sílabas métricas cada (como pode-se notar no segundo verso, a/mar/só/por/a/mar/a/qui/a/lém).

O próprio título do poema, cabe frisar, acompanhado de uma exclamação, remete a uma ideia, a um insight, a um alarde para um sentimento tão importante, que é o amor.

Ao analisarmos os primeiros quatro versos (primeiro quarteto), é perceptível o desejo incontrolável que arrebata o espírito do eu lírico, de modo que o mesmo deseja, perdidamente, amar (verso 1), mesmo que esse sentimento se construa apenas pelo simples propósito de senti-lo, e mais nada (verso 2). No terceiro verso, afirma que o seu amor é livre, e busca amar a qualquer pessoa (“Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...”) apenas pela sensação que é causada ao ser tomada pelo amor. Essa concepção de liberdade amorosa rompe com o conservadorismo da época e insere elementos de erotismo na poesia de Florbela. No quarto verso, torna a expor a inconstância e a instabilidade do amor, pois, por mais que se ame, pode-se, no fundo, não se amar verdadeiramente alguém.

No segundo quarteto, nos verso 5 considera que pouco importa se o amor é recordar um momento ou esquecê-lo. No 6° verso, fala sobre a complexidade do sentimento, que pode ser atrelar alguém a alguma pessoa ou libertá-lo de algo. Pode ser bom ou pode ser ruim, mas o amor é necessário. Reforça que o amor dedicado a uma única pessoa não é perene, e não acredita que se possa amar apenas uma pessoa durante toda uma vida (versos 7 e 8), o que expõe a inconstância de sua alma, humana, que anseia por um turbilhão de sentimentos intensos e que está propícia a novos arrebatamentos no decorrer da vida.

No primeiro terceto, nos versos 9, 10 e 11, considera ser necessário aproveitar a vida ao máximo pois, “se Deus nos deu voz/ foi pra cantar” (verso 11), ou seja: por analogia, se nós, humanos, somos capazes de amar intensamente, não apenas uma, mas várias pessoas durante a vida, devemos então aproveitar essa capacidade e amar sem nos prendermos a qualquer obstáculo. Essa ideia remete ao ideal árcade, o “Carpe Diem”, que prega que o homem deve aproveitar o dia, aproveitar a vida.

No último terceto (versos 12, 13 e 14), afirma que, se um dia a morte lhe levar (12), que seja essa noite (morte, verso 13), um nascer do sol, uma alvorada, um novo começo, pois teria vivido, então, intensamente, sem se prender a dogmas, apenas à liberdade de amar, à liberdade de sua alma. Encerra o poema ao reafirmar o seu desprendimento a um sentimento tido como perene, estando ela, pois, sempre aberta a novos amores, a novos arrebatamentos que podem tomar conta de seu ser (“Que me saiba perder... pra me encontrar”, verso 14).

Diante disso, vemos que Florbela Espanca foi uma poetisa à frente do seu tempo, pois, através de sua poesia, expressava as vontades da mulher, a qual ainda era reprimida na época em que viveu; vontades essas que, comumente. não eram bem aceitas pela sociedade. Florbela foi, então, atrevida em sua poesia visto que, enquanto humana, se entregava aos seus desejos e anseios, sem se importar com o choque causado pela sua poesia, que é, sobretudo, sincera e real.

 

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

De acordo com as leituras que exploramos neste estudo, a obra de Florbela Espanca consolida uma verdadeira explosão de sentimentos, de modo que a autora não se atem, em sua poesia, ao pudor da época em que vivia. Como afirma Moisés (1980, p. 312), vemos, na obra da poetisa, uma mulher com sensibilidade exacerbada, a qual torna os seus textos uma verdadeira retratação dos sentimentos intensos que afligem a sua alma.

A melancolia presente em quase todas as suas obras nos remete à ideia de sofrimento e dor. Enfatiza, desse modo, a identidade múltipla, o drama da época relacionado ao comportamento feminino e seu desejo de ser uma pessoa feliz, aspectos da instabilidade/complexidade da  alma, perceptíveis no texto de Florbela Espanca.

Através do poema “Amar!” podemos ver, então, algumas características que predominam na escrita dessa autora.  A poetisa lusitana interpreta personifica na escrita a sua autocrítica e constrói, assim, a unicidade de sua obra, imortalizada pelo tempo.

 

 

REFERÊNCIAS

 

ESPANCA, Florbela. AMAR. Disponível em: <http://www.prahoje.com.br/florbela/?p=252>. Acesso em: 4 de setembro de 2011.

 

ABDALA JUNIOR, Benjamin; PASCHOALIN, Maria Aparecida. História social da literatura portuguesa. 3. ed. São Paulo: Ática, 1990.

 

   

MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. 16ª. ed. São Paulo: Cultrix, 1980.

______. A Literatura Portuguesa através de Textos. 24ª. ed . São Paulo: Cultrix, 1995. 

RÉGIO, José. Ensaios de interpretação crítica: Camões, Camilo, Florbela, Sá Carneiro. Brasília: Porto, 1980. 244 p.

 

 


[1] Graduanda do VII Semestre do curso de Letras da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC. Bolsista de Iniciação Científica na modalidade ICB/UESC.

 

[2] Graduando do VII Semestre do curso de Letras da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC. Bolsista de Iniciação Científica na modalidade FAPESB. Tradutor e revisor da revista acadêmica EIDEA (UESC) e membro do corpo editorial do Grapiúba- jornal dos estudantes de Letras da UESC.

 

[3] Esse poema, de Florbela Espanca está disponível no sítio: < http://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=229> Acesso em: 2 de setembro de 2011.

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