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Resenha do texto Letramentos e identidade profissional: reflexões sobre leitura, escrita e subjetividade

31/07/2019 - Bruno Freitas de Carvalho Moreira

PAN, Miriam Aparecida Graciano de Souza; LITENSKI, Andriele Caroline de Lima. Letramentos e identidade profissional: reflexões sobre leitura, escrita e subjetividade. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-85572018000300527&lang=pt, acessado em 30 de março de 2019.[1]  

            A dupla de autoras do artigo aqui resenhado é composta por Miriam Aparecida Graciano de Souza Pan e Andriele Caroline de Lima Litenski. A primeira tem pós-doutorado em Ensino Superior pela Univerty of Texas em Austin e é doutora e mestre em Linguística e Análise do Discurso pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) – 2003, 1995. Ela tem graduação em Psicologia (1980) e Fonoaudiologia (1985) pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e especialização em Educação Especial pela mesma instituição; Miriam Pan é professora da pós-graduação em Educação (mestrado e doutorado) e Psicologia (mestrado) da UFPR. Já Andriele Litenski é mestre em Psicologia pela UFPR na linha de pesquisa “Práticas educativas e produção da subjetividade”. Ela é também especialista em Gestão Pública com ênfase no Sistema Único de Assistência Social, pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), tendo-se graduado em Psicologia na UFPR.

            O artigo de Pan e Litenski está dividido em quatro seções: Introdução, Método, Resultados e discussão e Considerações finais. Na Introdução, apresenta-se o estado do campo de pesquisa em letramento acadêmico e se constitui na base conceitual utilizada no texto, alicerçada pelas ideias propagadas no Círculo de Bakhtin e nos Novos Estudos de Letramento, destacando-se o linguista Brian Street. Na seção Método, opera-se uma subdivisão em pequenos blocos de conteúdo, são eles: Participantes; A oficina como meio de produção de dados: métodos e procedimentos; e Intertextos e produção de sentidos: a análise dos dados da pesquisa. Em seguida está o setor Resultados e discussão, onde se encontram as argumentações também subdivididas em: Os gêneros científicos: o primeiro estranhamento; Os sentidos da escrita na universidade: a reprodução; Produtividade: uma relação instrumental; Individualização das dificuldades: o sofrimento do estudante; e Ressignificando a leitura e a escrita: criação e autoria. Reproduzo aqui os subtítulos, pois eles resumem a discussão contida no corpo do texto, servem, assim, para de uma só vez apresentar a forma e o sinal do conteúdo do artigo, que será resumido nos três próximos parágrafos. Por fim, encontra-se no escrito a seção Considerações finais; é nela que as autoras retomam, resumidamente, as discussões dos resultados e faz-se ali, já no último parágrafo do texto, a vinculação delas com a função do psicólogo e com a eficácia das oficinas realizadas como fontes dos dados coletados na pesquisa qualitativa.

            A leitura e a escrita são fundamentos da memória da ciência e da transmissão de técnicas e são também atravessando suas práticas que a universidade forma e transforma os profissionais por ela constituídos. No entanto, os estudos de letramento no ensino superior ainda são poucos. A ideia de que o estudante, após aprovado no vestibular, tendo sido testada sua redação, já sabe escrever textos científicos é uma causa importante dessa insuficiência de enfoques no letramento, a partir e dentro do nível superior. As autoras sublinham, porém, que a linguagem é prática social – concepção trabalhada pelo Círculo de Bakhtin – e, portanto, a leitura e a escrita na universidade têm formas específicas desse contexto. À luz de Brian Street, vê-se que essas práticas estão sob as relações culturais de poder e influem na identidade do sujeito submetido a elas. É aí que está a motivação da escrita do artigo resenhado: na investigação da dimensão subjetiva da influência das práticas de letramento acadêmico na identidade do profissional formado pela universidade.

            Para coletar os dados da “pesquisa-intervenção”, as autoras formularam um conjunto de oficinas (cinco encontros semanais, de duas horas cada um, nos meses de maio e junho de 2015). Dentro dessas oficinas, foram selecionados quatro estudantes de Psicologia da UFPR, entre 17 e 22 anos, em diferentes fases da graduação. Nas oficinas, realizaram-se rodas de conversa, produções textuais e leituras coletivas. Foram gerados também produtos: quatro crônicas escritas pelos estudantes, diários de campo e transcrição do áudio dos encontros.

A análise dos dados foi fundamentada na Análise Dialógica do Discurso, do Círculo de Bakhtin. A partir das falas dos estudantes, as autoras perceberam as tensões na formação da identidade do sujeito pesquisado em meio ao dia-a-dia da universidade, tensões essas que se resumem em um duplo estranhamento do graduando em relação aos gêneros acadêmicos (Street, 2010) – choque cultural no encontro com esses tais gêneros discursivos complexos ou secundários (Bakhtin, 1979/2011) e choque com as expectativas da comunidade universitária num suposto domínio desses gêneros; na prática exigida da citação, em que o estudante entende uma preferência pela palavra de terceiros, autores já chancelados pela academia, em detrimento de sua palavra própria – a reprodução subjugando a criação; na lógica da produtividade ou da prescrição de inúmeros trabalhos, muitas vezes insignificantes, pois terminam em uma prática sem consciência, instrumento de dominação e alienação (Smolka, 2013); na hierarquização binária do competente/incompetente, que supervaloriza a identidade normalizada e descarta aquela em desenvolvimento; e na culpabilização individual do estudante pelo seu insucesso. Essas discussões, presentes no artigo de Pan e Litenski, foram retidas a partir das participações dos estudantes nas oficinas. Esses espaços apresentam-se, na abordagem das autoras, como locais de desnaturalização do discurso da competência individual, também como laboratórios privilegiados de contextualização das produções, de formação de uma escrita mais criativa e autoral no âmbito acadêmico da graduação, apoiada na operação consciente dos gêneros científicos.

              O artigo-tema desta resenha tem argumentação lógica e conceitualmente fundamentada, com referências a autores robustos do campo da linguagem, como Bakhtin e Brian Street. Falta, no entanto, uma explanação mais extensa das teorias desses autores. Os desdobramentos das ideias do Círculo de Bakhtin são rapidamente explicados, mas o discurso bakhtiano em si não está claro no texto, obrigando o leitor a se aventurar na pesquisa sobre os termos formulados por esse autor reproduzidos no artigo. Sobre Brian Street, também ficam abertas reticências e vontade de saber mais sobre sua teoria e a relação dela com o método bastante adequado levado a cabo pelas autoras. Os resultados são significativos e válidos à discussão do letramento acadêmico.

            Os pensamentos suscitados pelo artigo sob análise são importantes para aqueles que buscam compreender as dificuldades dos estudantes na leitura e escrita acadêmicas. Assim, o artigo em tela é recomendado para professores universitários e líderes de grupos de pesquisa, visto que ao conhecerem os entraves no desenvolvimento acadêmico do estudante de graduação, é possível mitigar o sofrimento e expandir as capacidades de pesquisa desses sujeitos.                 


[1] Resenhado por Bruno Freitas de Carvalho Moreira, estudante da graduação em Letras – Língua Portuguesa, da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

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