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PRINCIPAIS FUNDAMENTOS DA METAPSICOLOGIA FREUDIANA

29/09/2021 - Girlene Lima Portela

Qualquer nova descoberta, especialmente se esta visa compreender parte do todo ou trazer à luz achados que visam a melhor compreender determinados fenômenos e assim ampliar a concepção destes, necessita de uma sistematização, de uma organização (ou reorganização), em termos de uma metodologia que vise orientar o processo que levará/levou o cientista/pesquisador aos resultados obtidos nesse percurso, para estabelecer a maneira como esse processo se instaura/instarou. Nesse contexto, assim como as demais ciências, também a Psicanálise bebeu em outras fontes científicas, em ideias e postulados de áreas do Conhecimento distintas e complementares, como soe acontecer, especialmente na academia.

No caso do estabelecimento da Metapsicologia, mote desta produção textual, que buscou estabelecer o arcabouço teórico necessário ao entendimento de fenômenos psicológicos - até então desconhecidos ou pouco compreendidos pela comunidade médica no espaço sócio-histórico, onde os primeiros estudos de Freud acerca das ações/reações e reverberações destas para o desenvolvimento humano -, se deu de forma a corroborar os resultados de estudos anteriores e orientar, através da especificação de novos conceitos que dessem conta dos fenômenos psíquicos, até então taxados de histéricos, sem um estudo mais acurado dos fatores que os desencadeavam, assim como os desdobramentos dos comportamentos avaliados apenas como histeria, sem considerar as nuances dos diversos modos de reação dos sujeitos, mediante seus sofrimentos.

Pressionado por seus pares e, principalmente pela comunidade científica, Freud busca, através de seus achados, estabelecer os fenômenos psíquicos que o levou a expandir a forma como a medicina e a psicologia tradicionais encaravam os sintomas tratados, considerando o homem como uma fonte de desejos, recalques, pensamentos, julgamentos e emoções que o levava a agir e reagir de forma distinta, ao ser confrontado por outrem ou por si mesmo, desencadeando assim mudanças físicas e psicológicas na sua maneira de ser e estar no mundo.

Nesse contexto, uma vez que a meta de uma dada investigação está para além do que é passível de análise, com métodos puramente quantitativos, a metapsicologia freudiana foi além dessa função de apenas mensurar sintomas comportamentais, criando espaço para a adesão de mecanismos qualitativos de análise comportamental, a exemplo da explicitação de incontáveis fenômenos desencadeados pela psique, tanto pela observação (método empírico), quanto pelos dados coletados em análises de seus pacientes, através do método de associação livre, visando assim a melhor explicitar o que ocorre no aparelho psíquico de forma a considerar complementares funções desse aparelho na formação da personalidade humana em diferentes etapas de sua existência, as quais estão diretamente relacionadas com nossas interações, especialmente no que tange às crenças e valores adquiridos nessas interações.

Nessa perspectiva, considerando seus conhecimentos, enquanto neurologista e também psiquiatra, além de exímio analista de suas próprias relações e reações, Freud busca tanto nas proposições teóricas das suas áreas de expertise profissional, quanto nas observações dos comportamentos de seus pacientes, conforme aludido acima, uma forma mais especulativa para demonstrar como se dá a formação de neuroses e seus desdobramentos, acatando também saberes dos achados em estudos empreendidos por diferentes, mas complementares áreas do Conhecimento, a exemplo da física e da biologia, agregando aos princípios e abordagens dessas áreas, seus estudos, resultados de experiências plurais, criando, a partir daí as oportunidades de estudos da maneira como se dá as relações entre o inconsciente e a consciência.

Ao adentrar no campo da compreensão dos processos psíquicos, os quais ainda não haviam sido considerados no tratamento do homem enquanto ser complexo e integral, Freud, em sua busca constante por compreender o que levava alguém a agir de forma a trazer para si sofrimentos, os quais modificavam sua maneira de ser e de estar no mundo, aprisionando-se em seu corpo físico ou mental, iniciou uma série de pesquisas para entender os motivos pelos quais seus pacientes digrediam, fugiam da realidade, agiam de forma a se punirem ou mesmo a causarem dores a si mesmos ou a outrem.

Os achados freudianos acerca do que ocorre na psique humana nas relações/transições de crenças, acepções, concepções, valores adquiridos ao longo da vida, especialmente na primeira infância, estabelecendo conexões entre os dados armazenados no pré-consciente, no consciente e, mais especificamente no inconsciente, que é atemporal, ilógico e irracional, legando ao homem a capacidade de acumular toda sorte de experiência e que devido a essa complexidade, resultante da dualidade estabelecida entre esses complementares sistemas, permitiu que Freud cunhasse a expressão fenômeno psíquico para denominar um conhecimento psicológico que abarcasse as dimensões tópica, dinâmica e econômica, as quais serão melhor explicitadas, a seguir.

Em sua busca por embasar os achados acerca do funcionamento dos aspectos tópico, dinâmico e econômico, Freud caracteriza o aspecto topográfico como composto pelo pré-consciente e o consciente e o inconsciente. Já o aspecto dinâmico traz as duas vertentes dos fenômenos mentais, de termômetros como conflitos, deslocamentos e recalques. O econômico, por seu turno, é a maneira como é mensurada a energia dispendida para alimentar os processos psíquicos.

Recapitulando, os processos psíquicos são, em sua imensa maioria, inconscientes, e normalmente são determinados pelas nossas tendências sexuais, já a consciência representa uma fração de nossa vida psíquica total. O aparelho psíquico é movido por duas pulsões básicas: a de autopreservação e as sexuais (pulsão de vida), por isso mesmo guiadas pelo princípio do prazer (primeira tópica). No segundo momento dos estudos da psique (segunda tópica), Freud mantém os princípios já existentes e discutidos acima e acrescenta as instâncias denominadas de id, ego e superego, com seus conscientes e inconscientes, buscando assim dar conta dos demais fenômenos clínicos que acometiam os pacientes, a exemplo da hipocondria e do narcisismo e também de “desvios” sexuais, como  sadismo, masoquismo, etc.

Para concluir esta brevíssima conceituação, parafraseio Freud, quando ele utiliza-se de uma metáfora analógica, comparando a metapsicologia a um andaime ou ao cume de um edifício, elementos tão necessários à fundação e à finalização de uma construção.

 

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