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Por que desistimos facilmente das coisas?

09/02/2022 - Renato Yoshio Arai

 

Você que ficou curioso ao ler o título deste texto, provavelmente passa por essa dificuldade ou conhece alguém que esteja passando por isso, enfim, não importa. Tentar compreender quais os fatores que levam o ser humano a desistir de seus projetos de vida já é o primeiro passo para um possível processo de mudança.            
Citarei alguns motivos vistos em meus atendimentos, como, “é difícil”, “falta-me tempo”, “não ia dar certo mesmo”, “vou deixar para depois”, “falta-me confiança”, entre outros.            
Podemos perceber que são todos argumentos muito comuns em nossa contemporaneidade, ou seja, a culpabilização do tempo, a procrastinação e o pessimismo, como formas de lidar com uma projeção de um fracasso eminente.            
Todavia, uma possível causa, que se encontra por trás de todas essas justificativas seria a autossabotagem. Atualmente, ela vem sendo divulgada nas redes sociais como a Síndrome do(a) Impostor(a). O seu funcionamento consiste em se autoquestionar as habilidades do próprio indivíduo, como, por exemplo, um advogado que atende um cliente, e que, após algumas orientações e recomendações, posteriormente se martiriza considerando-se uma fraude, por achar que não está fazendo o seu trabalho corretamente.            
A autossabotagem pode ter a sua origem na repetição, como um sintoma, segundo a Psicanálise. Sigmund Freud (1856-1939), o criador dessa teoria demonstra, por meio de suas obras, que tendemos a repetir determinadas ações, no decorrer de nossas vidas, até que ocorra um despertar, uma percepção ou um insght, para sair dessa alienação.            
Em “Além do princípio do prazer” (1920), o fundador da Psicanálise descreve a compulsão pela repetição como uma maneira de tentar evitar um desprazer, ou seja, evitar a realidade. Por exemplo, a frustração recorrente devido às dificuldades encontradas ao longo do caminho, que é quando ocorre um fracasso no projeto de vida da pessoa e ela não consegue conquistar aquilo que foi planejado, cria um círculo vicioso e isso se repete em sua vida.            
Em outra obra freudiana “Conferências introdutórias à Psicanálise” (1916-1917), na parte III (Teoria Geral das Neuroses), o psicanalista afirma que a repetição, enquanto um sintoma seria uma forma de se obter algum prazer, o que é visto como um ganho secundário.            
Mas, você deve estar se perguntado, como assim? Para compreender melhor esses processos, seria necessário alongar a discussão, pois essa teoria possui muitas complexidades, que nesse momento poderia fugir do propósito deste texto. Em linhas gerais, a autossabotagem seria um modo de satisfazer o sujeito, com o seguinte raciocínio: “Ah! Não ia conseguir atingir o objetivo mesmo! Ao menos eu tentei”.            
Essa forma de pensamento já traz algum tipo de prazer, porque a última palavra “tentei”, já tranquiliza e substitui, embora em uma proporção bem inferior, o prazer que poderia ter sido obtido, se o sujeito tivesse continuado persistindo em seu projeto de vida, cujo o prazer seria muito maior.            
Portanto, em outro texto de Freud, “Recordar, Repetir e Elaborar” (1914) ele trata ainda da necessidade de trabalhar as limitações que impõem a desistência de continuar um projeto de vida, seja ela no campo profissional, social, conjugal ou familiar, devendo-se, primeiramente, se incomodar com tantas desistências, para que enfim, possa se movimentar em busca de um processo de mudança.            
Rever as habilidades, capacidades e potencialidades dentro da realidade de cada pessoa é um passo seguinte ao incômodo de querer sair dessa repetição e conseguir obter uma evolução em seu amadurecimento de vida.            
Tanto a análise quanto a psicoterapia são formas que podem auxiliar o sujeito nessa superação da autossabotagem, desde que este esteja ciente que precisa enfrentar os seus fantasmas que habitam o seu mundo interno. 
Referências
FREUD, Sigmund. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia [“O caso Schreber”], Artigos sobre técnica e Outros textos (1911-1913). In Recordar, repetir e elaborar. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. v. 10, p. 193-209.  
FREUD, Sigmund. Conferências introdutórias à Psicanálise (1916-1917). In Teoria geral das neuroses. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. v. 13, p. 325-613.  
FREUD, Sigmund. História de uma neurose infantil [“O homem dos lobos”], Além do princípio do prazer e Outros textos (1917-1920). In Além do princípio do prazer. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. v. 14, p. 161-239. 
Você que ficou curioso ao ler o título deste texto, provavelmente passa por essa dificuldade ou conhece alguém que esteja passando por isso, enfim, não importa. Tentar compreender quais os fatores que levam o ser humano a desistir de seus projetos de vida já é o primeiro passo para um possível processo de mudança.            
Citarei alguns motivos vistos em meus atendimentos, como, “é difícil”, “falta-me tempo”, “não ia dar certo mesmo”, “vou deixar para depois”, “falta-me confiança”, entre outros.            
Podemos perceber que são todos argumentos muito comuns em nossa contemporaneidade, ou seja, a culpabilização do tempo, a procrastinação e o pessimismo, como formas de lidar com uma projeção de um fracasso eminente.            
Todavia, uma possível causa, que se encontra por trás de todas essas justificativas seria a autossabotagem. Atualmente, ela vem sendo divulgada nas redes sociais como a Síndrome do(a) Impostor(a). O seu funcionamento consiste em se autoquestionar as habilidades do próprio indivíduo, como, por exemplo, um advogado que atende um cliente, e que, após algumas orientações e recomendações, posteriormente se martiriza considerando-se uma fraude, por achar que não está fazendo o seu trabalho corretamente.            
A autossabotagem pode ter a sua origem na repetição, como um sintoma, segundo a Psicanálise. Sigmund Freud (1856-1939), o criador dessa teoria demonstra, por meio de suas obras, que tendemos a repetir determinadas ações, no decorrer de nossas vidas, até que ocorra um despertar, uma percepção ou um insght, para sair dessa alienação.            
Em “Além do princípio do prazer” (1920), o fundador da Psicanálise descreve a compulsão pela repetição como uma maneira de tentar evitar um desprazer, ou seja, evitar a realidade. Por exemplo, a frustração recorrente devido às dificuldades encontradas ao longo do caminho, que é quando ocorre um fracasso no projeto de vida da pessoa e ela não consegue conquistar aquilo que foi planejado, cria um círculo vicioso e isso se repete em sua vida.            
Em outra obra freudiana “Conferências introdutórias à Psicanálise” (1916-1917), na parte III (Teoria Geral das Neuroses), o psicanalista afirma que a repetição, enquanto um sintoma seria uma forma de se obter algum prazer, o que é visto como um ganho secundário.            
Mas, você deve estar se perguntado, como assim? Para compreender melhor esses processos, seria necessário alongar a discussão, pois essa teoria possui muitas complexidades, que nesse momento poderia fugir do propósito deste texto. Em linhas gerais, a autossabotagem seria um modo de satisfazer o sujeito, com o seguinte raciocínio: “Ah! Não ia conseguir atingir o objetivo mesmo! Ao menos eu tentei”.            
Essa forma de pensamento já traz algum tipo de prazer, porque a última palavra “tentei”, já tranquiliza e substitui, embora em uma proporção bem inferior, o prazer que poderia ter sido obtido, se o sujeito tivesse continuado persistindo em seu projeto de vida, cujo o prazer seria muito maior.            
Portanto, em outro texto de Freud, “Recordar, Repetir e Elaborar” (1914) ele trata ainda da necessidade de trabalhar as limitações que impõem a desistência de continuar um projeto de vida, seja ela no campo profissional, social, conjugal ou familiar, devendo-se, primeiramente, se incomodar com tantas desistências, para que enfim, possa se movimentar em busca de um processo de mudança.            
Rever as habilidades, capacidades e potencialidades dentro da realidade de cada pessoa é um passo seguinte ao incômodo de querer sair dessa repetição e conseguir obter uma evolução em seu amadurecimento de vida.            
Tanto a análise quanto a psicoterapia são formas que podem auxiliar o sujeito nessa superação da autossabotagem, desde que este esteja ciente que precisa enfrentar os seus fantasmas que habitam o seu mundo interno. 
Referências
FREUD, Sigmund. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia [“O caso Schreber”], Artigos sobre técnica e Outros textos (1911-1913). In Recordar, repetir e elaborar. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. v. 10, p. 193-209.  
FREUD, Sigmund. Conferências introdutórias à Psicanálise (1916-1917). In Teoria geral das neuroses. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. v. 13, p. 325-613.  
FREUD, Sigmund. História de uma neurose infantil [“O homem dos lobos”], Além do princípio do prazer e Outros textos (1917-1920). In Além do princípio do prazer. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. v. 14, p. 161-239. 

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