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Convergências linguístico-psicanalíticas: o fenômeno hiperbólico na cura pela fala

22/02/2022 - Girlene Lima Portela

LINGUISTIC-PSYCHOANALYTIC CONVERGENCES: the hyperbolic phenomenon in speech cure Girlene Lima Portela[1]    


[1] PhD e Doutora em Educação, Mestre em Linguística, Especialista em Constelações Sistêmicas, Especialista em PNL, Doutora em Psicanálise.  

Introdução

O presente artigo, para além de uma exigência acadêmica, se traduz em uma produção escrita que busca dar conta das contribuições advindas da minha experiência, enquanto pesquisadora da linguagem e, mais especificamente, dos estudos linguístico-discursivos que formaram a estudiosa da maneira como estes reverberam nos pilares da Psicanálise, intentando corroborar a compreensão, especialmente das teorias relacionadas ao uso de figuras de linguagem com ênfase no uso de hipérboles e seus empregos nos casos clínicos. Nessa perspectiva, o texto em tela busca apresentar um brevíssimo estudo da referida figura de pensamento nas relações entre interactantes, tanto na área das Letras, em situações discursivas - sejam através de enunciados orais ou em registros escritos - quanto nas situações de interação entre analistas/analisandos.

Por se tratar de um texto acadêmico, com número limitado de linhas e, também guiado por exigências e normas para fins de avaliação, o artigo em produção se estrutura da seguinte forma: apresentarei, na primeira seção, a conceituação dos termos técnicos, intitulada Aporte Teórico: considerações iniciais, onde teço argumentos relacionados ao objeto de estudo, qual seja o uso da hipérbole para fins de estabelecimento de interação, com vistas a buscar adesão, fazer refletir, angariar simpatia, atenção, bem como externalizar pensamentos, julgamentos e, principalmente, emoções, no intuito de passar adiante, vociferar, expulsar os incômodos. Assim, para fins de ancoragem dessas premissas, valer-me-ei de teorias e teóricos, das áreas do Conhecimento anteriormente citadas, os quais embasarão a análise das situações escolhidas para fins de elucidação da proposição dos efeitos da hipérbole. Na segunda seção, serão apresentados os termos técnicos relativos ao Brevíssimo Aporte Metodológico, onde buscarei delinear o caminho científico percorrido para a defesa dos argumentos dispostos no presente documento. Na sequência, ampliaremos a argumentação acerca do objeto de estudo, com a seção intitulada Convergência linguístico-psicanalítico: o fenômeno hiperbólico na cura pela fala, que intitula o presente documento, a fim de arrematar a costura teórico-metodológica concernente aos usos da hipérbole para fins terapêuticos. Nesse sentido, traremos alguns exemplos de eventos hiperbólicos, retirados de situações comunicativas, seja em momentos quotidianos, seja de nossa experiência enquanto psicanalista. A posteriori, apresentaremos nossas considerações finais, seguidas das referências e notas.

 

1 Aporte teórico: considerações iniciais

Visando a adesão do leitor, para fins de elucidação do nosso objeto de estudo, convoco o teólogo, filósofo, escritor e professor universitário, Leonardo Boff, para reiterar minha escolha em amalgamar meus conhecimentos linguístico-discursivos - mote de minha carreira enquanto pesquisadora e professora universitária por mais de 30 anos - e meus conhecimentos na área da Psicanálise, meu novo nicho de atuação, justamente ao considerar que, segundo Boff "Cada um lê com os olhos que tem e interpreta a partir de onde os pés pisam", reflexão que lindamente corrobora o que sou e penso em relação ao ser e estar no mundo, enquanto eterno aprendiz e interactante, e claro, serve a melhor explicitar o meu olhar acadêmico acerca do objeto, dos objetivos, das teorias, das abordagens metodológicas utilizadas e, claro, na análise de tais escolhas para a produção do presente artigo.  

A partir de minhas incursões por centenas de textos produzidos, lidos, analisados, interpretados, revisados, além de orientações de pesquisas nas áreas da Linguística, da Pedagogia e, também, da Psicanálise, não poderia desprezar o conhecimento adquirido ao longo de três décadas de experivivências e, por isso mesmo, tais conhecimentos guiarão “meus pés”, corroborando Boff, ou minhas faculdades mentais, as quais ordenarão impulsos a levarem à ponta dos dedos, as informações que abarcarão as instruções que guiarão o presente estudo acerca do papel linguístico-psicanalítico da hipérbole, na construção do sujeito e do seu real, simbólico e imaginário, no dizer de Lacan. Nesse contexto, apresento, a seguir, a conceituação do que vem a ser a Linguagem humana e suas características, além da figura de linguagem, em tela, tanto na visão linguística quanto na psicanálise. 


1.1    O papel da língua/fala/linguagem na compreensão de situações comunicativas

 

A língua funciona como um elemento de interação entre o indivíduo e a sociedade em que ele atua. É através dela que a realidade se transforma em signos, pela associação de significantes sonoros a significados arbitrários, com os quais se processa a comunicação linguística, sendo essa uma das nossas premissas para explicitar a escolha do nosso objeto de análise, considerando-se também a dicotomia saussuriana langue/parole e suas nuances, para apresentar as seções complementares do presente documento, buscando corroborar os estudos psicanalíticos, no que tange à compreensão do significado do vocábulo hipérbole, no aporte teórico, no percurso metodológico e, principalmente nas considerações finais, dedicada a uma breve análise desse recurso estilístico/psicológico, a fim de sublinhar a importância do discurso e da arte para os estudos psicanalíticos. Para iniciar esse diálogo com o leitor, apresento as contribuições do linguista Benveniste, as quais me guiarão na sequência desse lastro teórico.

Émile Benveniste, tendo sido estudante de Ferdinand de Saussure, importante linguista estruturalista – cujos estudos muito contribuíram para o alargamento da compreensão de alguns fenômenos psíquicos – ampliou os achados do mestre genebrino, produzindo um dos documentos mais utilizados por linguistas, antropólogos e demais especialistas em desenvolvimento cultural, a chamada obra Problèmes de linguistique générale (Problemas de Linguística Geral), a qual defendia, em um de seus dois volumes, que a “linguagem só é possível porque cada locutor se apresenta como sujeito, remetendo a ele mesmo como eu no seu discurso. Por isso, eu, pressupõe outra pessoa, aquela que, sendo embora exterior a mim, torna-se o meu eco- ao qual digo tu e que me diz tu”. (Benveniste, 1976, p.286). (Grifos meus).

Consoante essa complexa definição de sujeito, frente a si mesmo, numa situação especular, observa-se, segundo proposição de Benveniste, que o eu não é senão os tantos outros que sobrevivem em mim, conceituação que, por encerrar tanta complexidade, teve inúmeras reverberações em muitas outras obras da Linguística, da Filosofia, da Antropologia, etc., e, por isso mesmo optei por alargar tal conceituação acerca da relação sujeito/ator/objeto/reator, ainda bebendo da inesgotável fonte de especulações linguísticas propostas por esse autor, visando melhor explicitar o papel social dos interactantes numa dada situação comunicativa. Assim, na sequência, trago um excerto de um artigo de autoria de Ferreira Jr. et al. ,  cujos autores amparam o argumento de alteridade, traço que fez de Benveniste um importante pesquisador da linguagem enquanto reconhecimento do sujeito ator e reator e, uma vez que essa característica dos estudos do linguista naturalizado francês se mostra muito pertinente e relevante, apresento na citação a seguir, um depoimento de tal contribuição.

(...) Benveniste se afasta das abordagens que tomam a linguagem como instrumento de comunicação e sublinha os aspectos alteritários da linguagem e sua inerência à natureza humana. Essa propriedade fundamental da linguagem de assegurar ao homem o aparato necessário para sua definição como sujeito em oposição ao outro evoca, por isso mesmo, o caráter intersubjetivo da subjetividade. Para Benveniste, é em relação de contraste que o homem experimenta a consciência de si. Não se pode imaginar, segundo o autor, um homem concebendo a si e, depois, tentando conceber a existência do outro. Se a linguagem está na natureza humana, a alteridade figura como elemento constitutivo do sujeito. (Ferreira Júnior et. al. , 2015, p. 4) (Grifos meus).

 

Nos grifos do excerto acima, destaco o sujeito que não se assujeita, mas que se (re)conhece a partir do outro, do espelhamento do outro que faz com que ele reconheça a si mesmo, assim como propunha Lacan, que assegurava que o sujeito “aparece primeiro no Outro, no que o primeiro significante, o significante unário, surge no campo do Outro, e no que ele representa o sujeito, para um outro significante (...)”. (Lacan, 1973/1988, p. 207)

 

Valendo-me dessas complexas proposições do que vem a ser o sujeito, em suas variadas formas de interações, propostas tanto pelo linguista Benveniste quanto pelo psicanalista Lacan, acerca do imprescindível papel deste, na compreensão de si e do outro para a construção da alteridade, adentrarei, oportunamente, também e mais demoradamente no universo da Psicanálise, especialmente no que diz respeito ao papel do sujeito paciente/analisado/analista, no intuito de tecer e clarificar meu objeto de análise.

Contudo, é imprescindível, neste momento, trazer à baila a explicitação do que vem a ser esse sujeito especular, em suas relações, no que tange à caracterização do vocábulo hipérbole e sua etimologia, conceitos e efeitos na enunciação, no sentido da busca desse recurso linguístico e também atitudinal na cura pela fala.

No campo etimológico, o vocábulo hipérbole tem raiz grega hyperbolé e significa “lançar além, lançar sobre”, o que se configura numa necessidade de ultrapassar a normalidade, através do exagero, em busca da atenção para o que se verbaliza. Em termos linguísticos, trata-se de um substantivo feminino que denota uma ênfase expressiva, resultante do exagero da significação linguística (estilística e retórica). No campo da literatura, a hipérbole é uma figura de linguagem e, mais especificamente, uma figura de pensamento (são expressões pautadas na falta de correspondência entre o que se fala ou escreve e a realidade a respeito da qual se enuncia) que visa o exagero na comunicação de um fato, visando sublinhar ou supervalorizar uma informação, por meio de expressões exageradas.

Por se configurar num recurso estilístico, a hipérbole serve a dar ênfase ao discurso, intensificando o valor da mensagem transmitida, intentando a adesão do interactante no estabelecimento da comunicação, corroborando os papeis dos fenômenos textuais-discursivos na tessitura textual, através dos elementos da intencionalidade x aceitabilidade[i], visando a plurissignificação de uma situação, por meio da extrapolação do sentido original. Assim, se eu afirmo que estou morrendo de sede, na verdade eu quero exprimir a intensidade do meu desejo e necessidade de ingerir líquidos, na expectativa da adesão do meu interlocutor, no sentido de minorar os efeitos do meu desejo, servindo-me (ou sendo servido) de um copo contendo líquido refrescante.

Deixando, por ora, os postulados da linguística, da retórica e da estilística, para a compreensão da figura de pensamento até então conceituada, nos ateremos, nas próximas linhas, às contribuições do teórico e psicanalista britânico, Wilfred Bion, para a utilização dessa figura de linguagem na compreensão de alguns fenômenos psíquicos.

De acordo com os estudos acerca da excepcional obra biônica (hiporbilizando, intencionalmente as contribuições do estudioso), observa-se, a priori, que, na concepção daquele psicanalista e teórico, a hipérbole é necessária para concatenação do papel da emoção na relação analisado-analisando (interactantes, segundo postulados linguísticos), visto que não existe, segundo Bion, emoção que não esteja situada na relação sujeito/objeto.

Uma vez que o nosso intuito não é trazer dados biográficos, metapsicológicos ou históricos da Psicanálise, visto que tais dados são encontrados à exaustão e certamente não acresceria à discussão/reflexão que está sendo engendrada, no presente documento, darei um salto abissal nas questões das contribuições das escolas psicanalíticas, que antecederam e contribuíram para a formação do psicanalista Bion e ater-me-ei ao momento em que a teoria da hipérbole, nosso foco de estudos, cunhada pelo referido autor, passa a ser aceita pela Sociedade Psicanalítica e é incorporada ao cabedal de termos técnicos que servem de arcabouço teórico, possibilitando a incorporação de novas ferramentas para a captação de dados empíricos, no que concerne o delineamento do mapa psíquico do paciente nas sessões de análise. Nessa perspectiva, valho-me de alguns escritos de Bion (1965/2004), especialmente no seguinte excerto:

O termo “hipérbole” tem uma história conveniente para uma representação compacta de uma série de enunciados clínicos que correm frequentemente e que são facilmente reconhecíveis como exemplo de hipérbole (sic.) são quase que certamente sintomáticos de uma conjunção constante importante para a personalidade que está sendo analisada e para a maior parte das teorias psicanalíticas de idealização, clivagem, identificação projetiva e inveja. (...) Tem assim um amplo espectro, é flexível e se presta facilmente a ser usada pelo analista como um fato selecionado (...) hipérbole é projeção conjugada a (sic.) rivalidade, ambição, vigor que pode chegar à violência e consequentemente (sic.) a distância à qual um objeto é projetado” (p. 223). (Grifos meus).

 

Estabelecendo-se uma relação entre a conceituação filológica, anteriormente aventada e essa proposta pelo autor sob estudo, pode-se afirmar que há similaridade entre ambas, uma vez que por se caracterizar em uma figura de pensamento (ling.) e esse (pensamento) é inerente ao sujeito cônscio (primeira tópica freudiana), hiperbiliza-se sentimentos, julgamentos e emoções, exteriorizando-os de maneira a exorcizá-los, a ressignificá-los, a resolvê-los, através da tentativa de adesão do interlocutor, para a resolução de um conflito interno, assim como quando tentamos lançar, em direção ao nosso interactante, os relevos, os exageros, as superlativações de nossos discursos, ao desejarmos atingir um determinado objetivo.

Ademais, ao apresentarmos uma interseção entre as duas áreas do Conhecimento, no que tange a conceituação do termo hipérbole, podemos asseverar, ainda baseados em Bion, que as hipérboles são “as realizações, fatos ou enunciados do paciente que parecem exagerados e impregnados de rivalidade”. Nesse sentido, o conceito de hipérbole ressalta um aspecto de ação, buscando a adesão do outro em termos de reação mediante nossa provocação, visando estabelecer uma zona de conflito, em busca de uma resolução. Contudo, se isso não ocorre, essa tentativa de realização do desejo é guardada no inconsciente, gerando inúmeras fantasias, as quais em algum momento necessitam ser desveladas, o que é explicado pela maneira como a psique age para a liberação de excessos de sensorialidade.

Ao exagerarmos, sublinharmos uma situação, até mesmo no senso comum, em ações quotidianas, estamos tentando desencadear, no nosso interlocutor, a utilização de seus órgãos sensoriais para que este corrobore seu estado psíquico, obrigando-se a tentar compreender a situação discursiva, minorando assim os efeitos dos conflitos trazidos nas frases e orações capciosas, mas dotadas de significados e, claro, carregadas de intencionalidade.

Ao não se atingir o estado desejado de “resolução” do seu conflito/desejo, estabelece-se o que a psicanálise enxerga como recalque, identificação projetiva, dentre outros. Nesse sentido, de modo inconsciente, o sujeito lança mão de algo que o incomoda ou aterroriza e tenta livrar-se do incômodo, atirando-o longe, conforme enunciado na tradução do termo grego, como visto acima e que segundo a teoria biônica é “uma forma específica de transformação” (Bion, 1965/2004, p. 181), que abrangeria o enunciado de um paciente. No caso da figura de pensamento, de acordo com a linguística, o uso da hipérbole também funciona, em um enunciado, como uma maneira velada de transformação de uma situação, utilizando-se de frases de efeito, sublinhando uma dada situação, para ligar-se à figura do outro, como acontece no setting terapêutico, através da associação livre de ideias. (Grifos do autor)

Nesse sentido e ainda bebendo na fonte da teoria de Bion, em se tratando da relação paciente-terapeuta, a hipérbole na comunicação efetuada no set terapêutico,

implica que a comunicação constitui um amálgama, onde o paciente tratou um significado, apreendido por métodos comuns de compreensão, como se fosse uma coisa, e o evacuou fonética e mentalmente, como se o fizesse por um aparelho de características comumente associadas a músculos. (1965/2004, p. 183). (Grifos meus).

 

Ao descrever o processo de desvelamento da sensação de angústia (recalque, identificação projetiva) por parte do paciente, admitindo que a maneira hiperbólica de tratar uma situação incômoda é uma forma legítima de utilizar o recurso linguístico e psicológico, especialmente nas passagens acima destacadas por grifos, para a obtenção de alívio de cargas emoções ‘atirando para fora’, ‘jogando para frente’, segundo a explicação etimológica do vocábulo grego, pode-se mais uma vez demonstrar as relações de convergências entre as áreas do Conhecimento até então aventadas, visto que a nosso ver seria imprescindível ao psicoterapeuta conhecer um pouco mais dos recursos linguísticos e, especialmente discursivos e estilísticos, para melhor compreender a ferramenta da associação livre e demais métodos de cura pela fala/escrita.

Para aclarar ainda mais essa explicitação acerca da importância do fenômeno linguístico-psicológico da hipérbole, trago a argumentação de Giuseppe Civitarese, um dos muitos autores que me serviram de norte para a releitura dos postulados biônicos, quando ele assevera que

(...) a hipérbole não possui só a valência estritamente observadora de conceito que nos faz suspeitar estar presenciando uma TA quando ocorre um dado enunciado ou comportamento do paciente. Fornece também uma descrição imaginativa de como funciona o processo de TA. Se eu tivesse que resumir em uma frase a desconstrução bioniana da diferenciação entre personalidade neurótica e personalidade psicótica, diria que o parâmetro principal a ser levado em consideração enquanto fator patógeno responsável pela violência da hipérbole e que, portanto, decide para qual lado pende a balança da patologia, é o grau de crueldade do Supereu. (Civitarese, 2020, p.15).

 

Além desse autor e sua análise acerca das contribuições de Bion para aclarar o fenômeno da hipérbole na relação analisado/analisando, o artigo intitulado Hipérbole: presença nas artes – presença analítica, de autoria de Diva Aparecida Cilurzo Neto, me trouxe, além de imprescindíveis reflexões acerca do fenômeno da hipérbole, muitas informações e mais certeza de que eu deveria ampliar a pesquisa sobre a fabulosa contribuição de Bion para os estudos psicanalíticos. Dentre muitos excertos que corroboraram a tese de que há um imbricamento de inúmeras áreas do Conhecimento, especialmente da retórica e do  discurso (linguística) com a psicanálise, Cilurzo Neto premia minha argumentação frente ao objeto de análise do presente artigo, ao afirmar que, enquanto figura de linguagem, a hipérbole

(...) nomeia a expressão exagerada de uma ideia cujo objetivo é demonstrar intensidade. Intensidade de prazeres e de desprazeres, de sentimentos, de inteligência, de dores, de angústias, de emoções e desejos. (...) a hipérbole avança e se contextualiza em inúmeros campos da vida humana, entre eles destaco as artes em seus diferentes vértices e a psique, tanto em sua dimensão inconsciente como na consciente. (2017, p. 2-3)

 

Ao confirmar esse irrefutável imbricamento entre as áreas com Conhecimento, a autora nos leva a melhor compreender uma das afirmações de Bion acerca da importância do fenômeno hiperbólico no método de associação livre, tão caro à Psicanálise, quando ela propõe que   

De importância analítica significativa, o comportamento hiperbólico para o autor é um comunicado defensivo, hétero e autodestrutivo, de um espólio de núcleos terroríficos existentes nos porões psíquicos. O uso da hipérbole para Bion, envolve mais que o imbricamento de emoção e evacuação crescente e intensa, estabelece um setting muito peculiar no qual se estabelece um ambiente altamente turbulento e insalubre. (2017, p.9)

 

Consoante o que constatamos, ao longo dessa sessão que buscou tratar da elucidação do termo hipérbole em suas diversas nuances e empregabilidade, no que tange a cura pela fala, exatamente pela necessidade do sujeito de exteriorizar seus sentimentos, julgamentos e emoções, mister se faz mais uma vez corroborar a importância de um estudo mais acurado sobre a importância da hipérbole numa situação de transferência, ao travar-se uma troca simbólica entre seres comunicativos, que se valem de seus papeis sociais, especialmente em se tratando de um setting clínico.

Após apresentar o brevíssimo lastro teórico, utilizando fios enunciatórios e discursivos, vislumbrando costurar a rede que interconecta, através do fenômeno da hipérbole, as áreas da Linguística e da Psicanálise, buscarei, na seção seguinte, tecer essa rede um pouco mais, através da utilização do aporte metodológico escolhido, a fim de dar conta do estudo ora exposto.

 

Brevíssimo Aporte Metodológico 

No que tange a abordagem, o presente estudo se configura em qualitativo, visto que não há mensuração de dados, coletados via estudo de campo ou laboratório, eximindo-se o pesquisador da criação de instrumentos de pesquisa, tais como questionários, entrevistas, grade de análise, etc. bem como da tabulação quantitativa dos resultados obtidos. Segundo seus objetivos, a pesquisa se organiza de forma descritiva, visto que nesse tipo de estudo é realizado um estudo discursivo, com análise e interpretação dos enunciados, delineando-se o que é abordado, descrevendo, registrando e interpretando fenômenos. Não há a interação ou envolvimento do pesquisador no assunto analisado, conforme dito anteriormente, pois não houve dados quantitativos ou exploração de variáveis, como soe acontecer em estudos experimentais.

Quanto ao procedimento, nosso estudo é de cunho bibliográfico, pois buscamos enfocar apenas aos postulados teóricos linguísticos e psicanalíticos, nos atendo especificamente no fenômeno denominado hipérbole e seus desdobramentos em ambas as áreas do Conhecimento, intentando elucidar um dos mecanismos linguísticos que corroboram a cura pela fala (psicanálise). Assim, nosso estudo se estrutura de maneira a fazer uma comparação entre os postulados linguísticos e psicanalíticos para estabelecer as convergências de tais postulados, na cura pela fala, através do fenômeno da hipérbole, conforme proposto por Benveniste, quando trata do papel do sujeito e reafirmado por Wilfred Bion, quando se reporta à sua teoria de grupos e suas interelações.

No que concerne o método de abordagem, nosso estudo é dedutivo-dialético[ii], pois nossa pesquisa não acrescenta informação nova, uma vez que ela surge pelo que já estava implícito nas premissas anteriores, considerando-se que busco vincular meus argumentos ao processo de diálogo e debates (Linguística/Psicanálise) acerca do objeto em tela, utilizando-me da discussão e da argumentação, para interpretar, de forma qualitativa, o uso da hipérbole no setting psicanalítico, através de certos princípios, leis e categorias de análise, visto que esse tipo de estudo requer a observação acurada da realidade em movimento, analisando partes da realidade em constante relação com a totalidade.

 

3 O fenômeno hiperbólico enquanto convergência linguístico-psicanalítico na cura pela fala

 

Em guisa de conclusão, alguns estudos linguísticos apontam que as várias características dos contextos sociais são constitutivas não apenas da ação e interação, mas, também, da produção e recepção de formas simbólicas. Assim como acontece geralmente com a ação, a produção de formas simbólicas envolve o uso dos recursos disponíveis e a implementação de regras e esquemas de vários tipos por um ou mais indivíduos, situados em determinada posição (ou posições) dentro de um campo ou instituição.

A posição ocupada por um indivíduo em um campo ou instituição e a expectativa de recepção de uma forma simbólica pelos indivíduos a quem a mesma é destinada são condições sociais de produção que moldam a forma simbólica produzida.

Assim, ao ocuparmos uma dada posição, necessitamos balizar nossas ferramentas de comunicação, a fim de validar nossos argumentos por autoridade, para sermos benquistos ou mesmo respeitados, enquanto membro de dada comunidade de fala, o que se dá por meio da utilização de máscaras sociais e de narrativas ensaiadas, mensuradas, escolhidas com o intuito de se fazer ouvir e respeitar. Nesse contexto, convoco Ricoeur (1985, p. 432), quando este assevera que “a identidade não poderia ter outra forma do que a narrativa, pois definir-se é, em última análise, narrar. Uma coletividade (ou um indivíduo) se definiria, portanto, através de histórias que ela narra a si mesma ou sobre si mesma”. Dessas narrativas, poder-se-ia, então, extrair a própria essência da definição implícita na qual essa coletividade se encontra, o que soe acontecer em toda e qualquer tentativa de interação bem sucedida.

Nessa perspectiva, um indivíduo emprega recursos, baseia-se em regras e implementa esquemas com o objetivo de produzir formas simbólicas para um receptor particular ou para um conjunto deles e, a expectativa de recepção de tais formas faz parte das condições dessa produção, como ocorre no estabelecimento de sociedades, como as academias, as escolas, os diversos grupos que se formam buscando um norte comum.

Grosso modo, o que Ricoeur sugere, a partir de sua argumentação acerca dos indivíduos situados, é que tais indivíduos (situados em posições intermediárias) podem, assim, empregar a estratégia de pretensão, fingindo ser o que não são e buscando, dessa forma, assimilar-se a posições consideradas superiores às suas. Nesse contexto, para estabelecer-se uma situação de pertencimento, os indivíduos situados podem adotar vocabulário específico, como jargões, cacoetes e alguns maneirismos discursivos dos seus pares ou de grupos, produzindo formas simbólicas que exibem características dominantes e que atestem sua ambição, domínio, sapiência, controle ou sua insegurança.

Ao conhecermos um pouco a história da Psicanálise, as escolas psicanalíticas, a criação da IPA, as convergências e divergências de seus membros e de demais Associações, Cursos e Escolas de Formação, atestamos como fica evidente esse recurso linguístico-estilístico, acima proposto por Ricoeur (op. cit.), empregado em seus discursos e escritos, visando a adesão de seguidores, admiradores e demais sujeitos ávidos por poder e “um lugar ao sol”.

No caso específico do setting psicanalítico, afunilaremos essa tentativa de demarcação de território, de demonstração de poder na relação paciente/terapeuta, onde se instaura uma luta de classes. De um lado o psicoterapeuta, com seu arsenal teórico. Do outro o paciente pagante, que sempre intenta negociar valores materiais, determinando um jogo de interesses, o que se dá mediante o que o linguista acima citado caracteriza como sujeitos situados em posições intermediárias.

Afunilando um pouco mais, ao iniciarmos ou darmos sequência a uma sessão terapêutica, normalmente essa é permeada de falas de indivíduos situados - em posições intermediárias, uma vez que ambos trazem conhecimentos (ou desconhecimentos),  julgamentos, experivivências de outrem, permeados com os julgamentos de si e, não raro, também utilizando-se da Transferência ou da Contratransferência, para o estabelecimento de uma relação de trocas desiguais, mas que, em se tratando do cliente (pagante e imbuído de sua capacidade de compra da almejada ou prometida cura), delega ao psicoterapeuta o papel de saco de boxe ou de alvo receptor de setas, no qual ele pode descarregar todos os seus sentimentos angustiantes, o que se dá normalmente de forma a corroborar o que Bion defende como uso da hipérbole para minorar efeitos, esperando a reação do terapeuta, que a depender da formação ou da experiência, agirá de forma surpreendente para outrem que não participa/participou do momento sócio histórico do evento relatado ou mesmo vivenciado pelos interactantes da cena instaurada. Ampliando essa premissa, Cilurzo Neto (op. cit., p.107) defende que

O histrionismo hiperbólico manifestado no setting analítico pelo analisando, de maneira direta ou indireta, de acordo com Bion, encontra na pessoa do analista não somente um espectador, mas também um participante da cena no qual o paciente projeta sua violência, inveja e agressividade evacuativa. Contudo, embora este esteja sustentado por preconcepções distorcidas e estabelecer uma conjunção constante de rivalidade com o analista, seu intrínseco objetivo é chamar a atenção do analista enquanto continente para sua existência e para sua miserabilidade psíquica que se configura sob a forma de intensa dor.

 

Nesse momento, tanto o analisado quanto o analisando estão ocupando entrelugares, pois ambos estão a ocupar posições intermediárias, visto que cada um dos sujeitos, implicados na situação terapêutica, pode adotar certos vocabulários, maneirismos discursivos, para dar conta da necessidade de demonstrar domínio da situação instalada e instaurada. No caso do analista, ao demonstrar domínio da situação, ele busca demonstrar o seu lugar de poder, frente ao analisado, que por seu turno, reconhece (ou deveria reconhecer?!) os contratos sociais implícitos ao iniciarem uma relação de trocas, na qual um exterioriza, da forma mais hiperbólica possível, suas dores, suas mazelas, suas mágoas, seus ressentimentos, etc. e o outro, acolhe, com maestria, auxiliando-o a liberar, libertar, significar/ressignificar cada um dos eventos trazidos por aquele sujeito-analisando que se dispõe a assumir o papel de vítima ou de algoz da situação trazida ao setting terapêutico.

Em se tratando do que se espera da reação do analista, numa situação de exaltação do paciente, frente a uma memória dolorosa, ele (o analista) deve escutar, “colocando entre parênteses a realidade do senso comum, aquela dos familiares, “o ponto de vista leigo” ou do “público” (...) porque todos esses vértices explicam os eventos pensando que o paciente “não é simplesmente uma pessoa normal tendo um comportamento difícil”. (Bion, 1965/2004, p. 21). (Grifos do autor) 

Além desses processos de estabelecimento de trocas simbólicas entre analisando/analista, também chamado de transferência, têm-se nesse tipo de relação, a identificação e os conflitos defensivos, conforme propostos por Freud, atestados e ampliados pelos seus seguidores, dentre os quais Bion, que defende que os mecanismos de defesa se configuram como o conjunto de operações, de mecanismos psíquicos, cuja finalidade é proteger a integridade do ego.

 

Brevíssimas Considerações Finais 

Nossa opção pelo psicanalista e estudioso Wilfred Bion se dá pelas semelhanças de suas teorias acerca do sujeito que interage, especialmente em grupos, enquanto protagonista, o que reverbera em inúmeras acepções linguísticas que falam da alteridade do sujeito nas interrelações. Assim, ao escolher o estudo de Bion sobre o uso da hipérbole em situações de busca da cura pela fala, também o faço pelo brilhantismo de seus estudos, embora reconheça que há inúmeras críticas aos seus inacabados projetos, relacionados com teorias incompletas. Contudo, apesar de ter conhecimento dessas críticas e senões, ainda assim considero-o um linguista disfarçado de psicanalista, tamanha as similaridades com os estudiosos da linguagem que trouxe para ampara meu brevíssimo aporte teórico.

Antes de arrematar a costura textual, apresentando minha defesa para o estabelecimento do objeto de análise, dos objetivos, bem como do lastro teórico-metodológico, quero ainda sublinhar a minha predileção pelo autor da minha nova área de atuação e aqui contemplado. Para tanto, convoco João Carlos Braga (2017), quando este coaduna comigo em sua leitura positiva acerca das contribuições de Bion para a Psicanálise, conforme no excerto abaixo:

A contribuição de Bion para a psicanálise é mais do que um corpo organizado de teorias psicanalíticas e de teorias da observação psicanalítica. Além de ter produzido uma teoria sobre o funcionamento da personalidade, uma teoria sobre o desenvolvimento da personalidade e uma teoria sobre o trabalho clínico, Bion trouxe as contribuições de Freud e de Melanie Klein para um registro compatível com a visão científica do século XX. Nesse sentido, pode ser vista como um novo paradigma para o pensamento psicanalítico, na intenção com que Thomas Kuhn (1962/2006) usou este termo em epistemologia ou na forma com que Suzanne Langer (1942/1971) usou ideia semelhante em Filosofia em nova chave. Para ilustrar a mudança que a visão da psicanálise de Bion nos proporciona, vou centrar-me em um ponto apenas: a substituição, na clínica, do privilegiar as teorias psicanalíticas consagradas como uma bússola a se recorrer na sessão analítica (a posição clássica), pela identificação da experiência emocional disponível na situação analítica. Mas, antes de desenvolver este propósito, acho útil deter-me, por um momento, no reconhecimento do enraizamento do pensamento de Bion em Freud e Klein. (p.02)

 

Dito isso, para além da hiperbolização da costura teórica, o estudo até aqui apresentado, se trata de uma pesquisa qualitativa, tendo como um dos fios metodológicos a pesquisa descritiva, de cunho dedutivo-dialético e, por isso mesmo sem o uso de coleta de dados via pesquisas de campo, de laboratório, estudos de caso ou, ainda, tabulação, mensuração ou planos de experimento. A opção por essa abordagem permitiu-me, a partir do referencial teórico, bem como das reflexões e contribuições das áreas do Conhecimento para o delineamento de um dos mecanismos de análise da Psicanálise, um sobrevoo sobre um fenômeno linguístico, com viés psicológico, visando assim que seja reconhecida a validade de tal estudo, uma vez que intentamos, através de um estudo original, ampliar as discussões acerca das reverberações dos estudos da linguagem na psicopterapia, bem como fomentar a reflexão/discussão, caso haja interesse pela busca das citadas referências, elencadas na sequência do presente documento.

Nosso intuito ao produzir um texto argumentativo-discursivo e, até certo ponto analítico, se deve ao fato de não desejarmos corroborar com a repetição exaustiva da bibliografia psicanalítica, trazendo apenas dados biográficos e contribuições dos psicanalistas que integraram as escolas que sucederam a Freud, tão pouco polemizar com histórias e estórias acerca dos bastidores da IPA ou qualquer outro fato que sempre serve a ilustrar alguns dos textos ou cursos que visam à Formação em Psicanálise.

Ao optar por produzir um texto tratando das convergências das duas áreas que considero altamente ricas, em termos de contribuições históricas para a compreensão da nossa jornada, atravessada por relações ambivalentes, caóticas, neuróticas e, por isso mesmo ricas em trocas simbólicas e significativas, pretendi alargar o universo dos estudos e reflexões acerca das contribuições advindas do fenômeno ora explicitado neste documento.

 

Referências


BENVENISTE, Émile. Problèmes de Lingusitique générale. Tome I. Paris: Gallimard, 1976.

BION, Wilfred Ruprecht. (1965). Transformações: do aprendizado ao crescimento. 2. ed. Rio de Janeiro: Imago, 2004.

BRAGA, João Carlos. O legado de Bion: um novo paradigma para pensar a psicanálise. In. Jornal de Psicanálise. vol.50 n.92, São Paulo, jun. 2017

CILURZO NETO, Diva Aparecida. Hipérbole: presença nas artes – presença analítica. In. Revista de Psicanálise da SBPPA, n. 19, p. 154-170, 2017.

CIVITARESE, Giuseppe. Alucinose, hipérbole e a diferenciação neurose/psicose no pensamento de Bion e na teoria do campo analítico. In. Revista de Psicanálise da SPPA, v. 27, n. 1, p. 103-127, abril 2020.

FERREIRA, Jr. et al. A Teoria de Benveniste sobre a pessoalidade e seus desdobramentos na enunciação infantil. Revista DELTA, n. 31 (2). Jul-Dec 2015.

LACAN, Jacques. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998/1953.

RICOEUR, Paul. La mémoire, l’histoire, l’oubli. Paris: Seuil, 2000, Tradução de Alain François et al. Campinas, SP: Editora Unicamp, 2007.Temps et récit. Paris: Seuil, v. I, 1985.

   


[i] A intencionalidade é considerado um fator textual pragmático que serve a estabelecer elos com o interactante, visando criar um canal de comunicação eficiente, através da escolha de determinados vocábulos, expressões, figuras de linguagem, a exemplo da hipérbole, para a adesão do seu interlocutor, na sua necessidade de comunicação. Já a aceitabilidade é a maneira como o interlocutor reage a essa abordagem, ficando a seu cargo acatar (ou não) o estabelecimento da comunicação, via fala/escrita.

[ii] Método dedutivo-dialético: nesse tipo de abordagem, prima-se por compreender as contradições, visto que estas se transcendem dando origem a novas contradições, as quais passam a soluções, uma vez que se considera que os fatos não podem ser analisados fora do contexto social, político, econômico, dentre outros.

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  • Girlene Lima Portela

    06/06/2022

    Caríssimo colega Paulo Antônio Merlin, é uma honra e um prazer receber feedback tão positivo e carinhoso acerca do meu escrito. Tua visita ao meu site me traz muita alegria. Gratidão!

  • PAULO ANTONIO MERLIN

    20/04/2022

    Parabéns, querida Girlene! Seu artigo me causou bastante curiosidade e me deu o que pensar. Não pude deixar de ler e, mesmo após a leitura me vi curioso acerca do tema. Me valeu, entre outras, acessar Bion e me dar conta que o buraco é muito mais embaixo, hahaha. Está muitíssimo bem escrito e contribui inegavelmente para a construção do conhecimento! Mais uma vez, parabéns! Um grande abraço! - Paulo Merlin (@aupolinerm)

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