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Aproximações entre Psicanálise e Filosofia

24/02/2022 - João Paulo Ferreira

Aproximações entre Psicanálise e Filosofia[i]  

É observável que Freud, ao se deparar com especulações comparativas entre, Filosofia e Psicanálise, se ressentia por considerar essas comparações esdrúxulas, uma vez que, aos seus olhos, à Psicanálise fugia à limitação puramente reflexiva: ela não se delimitava a reflexão e questionamentos, mas se estendia ao emprego clínico experimental, onde se fazia validar, confirmar, ou refutar sua teoria.

Em seu grande paradoxo, Freud nos apresenta uma indiferença à Filosofia, que outrora lhe encantou, ora se aborrece com ela, ora a respeita. A filosofia de certa forma, mesmo que indiretamente, estabelece uma conexão com a Psicanálise, se observarmos que a segunda mencionada – psicanálise –, também leva o indivíduo a autorreflexão, porém, ao contrário da primeira, a psicanálise direciona o indivíduo forçando seu “eu” a lutar contra forças inexoráveis, afim de trazer à luz o material inconsciente – recalcado. A autorreflexão oferecida pela psicanálise, foge à mediocridade da especulação, quando faz validar e comprovar seu método por meio da clínica.

O mais interessante e crucial, que apresenta a confirmação dessa teoria é a autoanálise, onde o próprio Freud, com intuito de confirmar e validar, de forma a diferenciar sua teoria, e afim de eliminar quaisquer especulações meramente comparativas, acabou por aplicar em si o conhecimento obtido na clínica acerca de suas formulações teóricas.

As aproximações fundamentadas entre a Filosofia e Psicanálise, são observáveis no âmbito da contemporaneidade, onde o sujeito se depara com seu “eu” fragilizado, fragmentado e martirizado, por consequência da repressão a prazeres incompatíveis ou inaceitáveis pela sociedade; o mesmo reprime seus desejos para se enquadrar nos padrões culturais, gerando assim desprazer a si mesmo. Mas, onde a Filosofia e a Psicanálise se encontram? Elas se debruçam no princípio do prazer, e no princípio da realidade. Onde o sujeito, se sujeita.

Nesse contexto, o sujeito se esquiva de seus desejos, os repele. Esse movimento gera grande sofrimento e, é aí que a Psicanálise e a filosofia se aproximam, ambas atuando no sofrimento do sujeito. Como? A filosofia oferece ao sujeito métodos que o levam ao autoconhecimento, como indagações, autorreflexão, auto-observação. Enquanto a filosofia tem como objetivo principal a observação e a reflexão, do que pode existir ou não, no plano metafísico, o objetivo da psicanálise é restaurar o texto integral da vida do paciente, mediante a reincorporação ao fluxo da consciência de conteúdos recalcados. A psicanálise tem, no cotidiano, sua matéria-prima: fazer uma releitura da vida cotidiana sob vários aspectos. É chamada a resolver os mal-entendidos que derivam, com efeito, do recalque de certos significados, provocados por conflitos extralinguísticos. Desse modo, observamos que enquanto a filosofia se debruça apenas em questionamentos dirigidos pelo princípio da realidade, questões abstratas, pertinentes ao plano metafísico, a psicanálise por sua vez, se encontra debruçada e conexa a ambas – princípio da realidade e princípio do prazer -, por levar em consideração um inconsciente não reconhecido inicialmente pela filosofia, aqui a abstração é referente ao plano metapsicológico. E, devido a isso, a psicanálise fornece ao sujeito meios de trazer à luz fragmentos recalcados que causam grande sofrimento ao “eu”, enquanto que a filosofia, dentro do que concerne o plano metafísico também o ajuda, porém, em determinado momento se faz insuficiente, por não conseguir alcançar ou delinear as causas do sofrimento. A psicanálise em contraparte, dá continuidade a esse trabalho de autoconhecimento e oferece ao sujeito o auxílio devido para que ele incorpore ao seu “eu” fragmentos perdidos e obscuros que nele causam sofrimento inconsciente, com esse movimento de incorporação, o “eu” reconhece as causas e consegue ab-reagir a esses afetos, fazendo assim se dissolver os elementos causadores.

A psicanálise e a filosofia se aproximam e se divergem em pontos, porém, ambas oferecem ao sujeito um suporte muito importante, para que o mesmo aprenda a lidar com o impacto da realidade sobre seu “eu”, uma vez que ele se encontra acorrentado pelo mundo externo e aprisionado pelo mundo interno, não sendo assim dono de si mesmo, e sempre na busca por respostas e meios de se libertar.

   


[i] João Paulo Ferreira é psicanalista clínico, formado pelo Instituto Avia De Psicanálise (MG) e também Educador Físico, formado pela Faculdade Unicesumar (MG)

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