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HISTÓRICO DA PSICANÁLISE E SUAS REVERBERAÇÕES NA ATUALIDADE

30/09/2021 - Girlene Lima Portela

CONCATENAÇÃO DOS ESTUDOS ACERCA DO HISTÓRICO DA PSICANÁLISE E SUAS REVERBERAÇÕES NA ATUALIDADE

 

1. O estabelecimento da Metapsicologia

Conforme aventado na produção anterior, a Metapsicologia buscou estabelecer o arcabouço teórico necessário ao entendimento de fenômenos psicológicos, através da especificação de novos conceitos que dessem conta dos fenômenos psíquicos e seus desdobramentos. Ao estabelecer a metapsicologia, enquanto aporte para os variados fenômenos psíquicos, o pai da psicanálise trouxe importantes contribuições ao estudo da mente e seus componentes para a compreensão e explicitação de comportamentos mediante situações adversas, as quais foram ampliadas por seus contemporâneos e demais pesquisadores que o sucederam, levando-os a criaram novas escolas e associações, seja para refutarem os achados e postulados freudianos, seja para aderirem às teorias que revolucionaram a ciência médica, especialmente no tocante aos estudos do inconsciente e das pulsões, conceitos basilares para a Psicanálise.

2. O papel das escolas psicanalíticas de ontem e de hoje e suas contribuições para a terapia

Aderindo às postulações freudianas por ocasião do estabelecimento da metapsicologia e seu arcabouço teórico, em torno das tópicas, têm-se a escola ortodoxa, que visava manter as proposições acerca da compreensão dos desejos reprimidos, das pulsões e da livre associação, as quais foram retomadas, modificadas ou reformuladas, a posteriori, mas que de certa forma mantiveram os pilares do construto, defendido quando do estabelecimento da metapsicologia.

Intentando ampliar ou modificar alguns dos métodos ou acepções de Freud, têm-se a cisão de um dos maiores estudiosos da mente e que contribui para que os estudos freudianos pudessem ser alargados, ressignificados e, assim, dessem conta de um número maior de fenômenos psíquicos que aqueles inicialmente propostos pelo Mestre, seu discípulo Carl Yung cria os conceitos de inconsciente coletivo e psicologia analítica, ampliando assim o leque de possibilidades de estudos do inconsciente e das pulsões que revolucionaram a maneira como o homem era concebido em suas interações.

Dedicado aos estudos das neuroses, das pulsões, da libido dos adultos, Freud tem seus achados dessa fase de vida, reavaliados e ampliados por uma de suas discípulas e muito importante cientista que muito contribuiu para a evolução dos estudos iniciais, que discordando de algumas teorias, inicia os estudos de comportamentos de crianças em suas relações, especialmente com a mãe, revendo a função do objeto nas interações da criança com o meio, o que mais tarde também seria mote de estudos de Bion, Winnicott e demais estudiosos das relações chamadas de objetais.

Buscando um contraponto com os estudos de Klein, Jacques Lacan, defensor das ideias originais de Freud, insere a noção de sujeito, que estaria vinculada às instâncias do real, do simbólico e do imaginário, conceitos que revolucionaram as noções iniciais, relacionadas ao inconsciente.

Além desses importantes estudiosos da mente, muitos outros contribuíram para o avanço da ciência da psique, pois estes agregaram valores aos achados da escola chamada ortodoxa e que permitiram que conceitos como a livre associação pudesse permitir que, na contemporaneidade a relação entre psicanalista e paciente pudesse ser mais estreita, ampliando-se assim o papel de terapeuta holístico e de aliado do paciente na busca da compreensão de si mesmo, auxiliando-o, por meio de instrumentos diversos a encontrar soluções para suas crises existenciais, sem apenas escutar, observar, guiar, estabelecendo assim trocas significativas entre paciente e psicanalista.

Em se considerando uma situação de terapia, a análise passa do imaginário para o simbólico, onde o analista busca auxiliar o analisando a melhor compreender o mundo natural e o mundo cultural, visto que a escuta analítica se produz na relação transferencial, a partir do dizer do analisando acionado pela regra fundamental da psicanálise, a regra da associação livre. A psicanálise, como postulou Lacan, é o único discurso que coloca o saber no lugar da verdade, isto é, que trata do saber sobre a singularidade subjetiva em seu estado nascente, no próprio ato da palavra falada. A experiência analítica é a única a proporcionar a um sujeito acesso ao mais amplo espectro de suas formações do inconsciente.

 

  1. Psicanálise e Religião

Quando tratamos de religião, estamos abarcando um conjunto de crenças, de julgamentos, de ensinamentos que nos são inculcados a partir de nossa relação com os desejos de nossa alma, com o que nos foi ensinado, especialmente no seio de nossa família ou na relação com outrem. A religião nos garante uma coragem, um desejo de partilhar, de comungar de nossos melhores sentimentos, de expiar nossas culpas, estando de acordo com o que nos foi ensinado, através de figuras de linguagem, de textos históricos, de testemunhos, sempre baseado na fé, na aceitação de Deus enquanto ser onisciente, onipresente, muitas vezes apresentado como um juiz implacável, o que leva a uma série de questionamentos, por vezes silenciados por pessoas fanáticas, que apenas julgam o ser reflexivo, que busca apenas entender alguns eventos. Ou seja, a religião pode ser algo que liberta ou que aprisiona, a depender de como ela é utilizada, compreendida e se baseia unicamente na fé e na capacidade que essa fé tem para curar feridas e traumas e, nesse momento, ela se aproxima um pouco de um dos princípios da Psicanálise, pois apenas acatando a crença de que somos capazes de conhecermos e reconhecermos nossas limitações e nos deixarmos guiar pelas oportunidades que nos são facultadas, guiadas e orientadas pelo líder religiosos ou pelo psicanalista, conseguiremos adentar num espaço sagrado da busca pela compreensão de quem somos e do que podemos. Já a Psicanálise trata-se de uma Ciência, pautada em princípios, métodos, parâmetros observáveis no mundo físico, na matéria, o que dificulta uma aproximação, uma tentativa de se buscar uma resposta científica para determinados fenômenos psicossomáticos. Na minha concepção, elas se aproximam apenas no que tange a possibilidade do reconhecimento de uma força motriz, capaz de acessar nosso subconsciente, seja por meio da fé, de rituais sagrados (independente da denominação religiosa), seja por meio de técnicas terapêuticas e de análises de comportamentos, inputs e ressignificação de eventos (Psicanálise), bem como de fatores políticos e econômicos, pois em diferentes momentos históricos e sociais a igreja católica, o protestantismo e demais denominações religiosas, por questões práticas, buscaram os postulados da psicanálise para criarem centros de formação, com o claro intuito de alargar suas possibilidades de ampliação de poder econômico.

Contudo, a recíproca também é verdadeira, visto que alguns psicanalistas se valeram da influência das religiões para se estabelecerem, materialmente, difundindo os achados da Psicanálise. Socialmente, somos movidos a trocas, a buscas de ampliação de cenários, com os mais diferentes e diversos intuitos e interesses.

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